A telefonista Elaine Ivo sofreu queimaduras nas costas — Foto: Arquivo pessoal
A rotina da telefonista Elaine de Souza Ivo, de 35 anos, envolve um dia a dia em que cruza a cidade do Rio no roteiro entre sua casa, em Bangu, na Zona Oeste, e seu local de trabalho, em Botafogo, na Zona Sul. Para acelerar a viagem de volta, vai de metrô até Coelho Neto, de onde pega um ônibus que siga pela Avenida Brasil, desembarcando no seu bairro. Na noite desta quarta-feira, a rotina foi alterada por um susto: na altura de Barros Filho, uma bomba artesanal foi lançada por criminosos dentro do ônibus da linha 771 (Coelho Neto x Campo Grande), caiu atrás do banco onde ela estava sentada e explodiu.
Atendida no Hospital municipal Albert Schweitzer, em Realengo, Elaine teve alta durante a madrugada e, ao voltar para casa, não conseguiu dormir. Além da telefonista, outras duas pessoas ficaram feridas no ataque: Eduardo Vieira Pontes, de 61 anos, foi levado em estado grave para a unidade de saúde. Luís Silva, de 65 anos, está no mesmo hospital. Os dois se encontram em estado estável, segundo a Secretaria municipal de Saúde.
— Estou sentindo muita dor nas costas, muita dor de cabeça, além da queimadura nos braços. Quando (a bomba) explodiu, eu não desmaiei. Só senti que o sangue estava escorrendo, pensei que era tiro, mas depois que fui ver que era bomba — disse a telefonista.
Segundo ela, ao embarcar no ônibus, chegou a sentar próximo da porta de desembarque mas, antes da partida, decidiu mudar para o primeiro banco atrás do motorista.
No fone de ouvido, uma oração, interrompida por gritos vindos de dentro e de fora do coletivo. Segundo ela, criminosos armados cercaram o ônibus e mandaram o motorista parar, enquanto, no lado de dentro, passageiros tentavam impedir que eles acessassem o veículo, sem conseguir.
— Quando abri o olho, vi um monte de homem do lado do ônibus. Quando vi que um deles estava querendo jogar uma coisa no ônibus, me abaixei. Essa coisa caiu entre meu banco e o do senhor atrás de mim, e explodiu — lembra Elaine, ainda com as cenas daquela noite recentes em sua cabeça. — Falaram que quando a polícia chegou, teve troca de tiro. Mas eu não estava ouvindo bem, por causa da bomba.
Segundo Elaine, a oração que ouvia a protegeu:
— Tenho certeza. Os policiais falaram para a gente que poderia ter sido pior. O banco protegeu as minhas costas.
Os criminosos ainda levaram pertences de alguns passageiros. O celular de Elaine só não foi levado porque ela o escondeu em sua roupa.
Segundo a telefonista, passar pela Avenida Brasil é sinônimo de perigo. Além dos assaltos a ônibus, já presenciou até tiros e perseguição. De licença médica para tratar dos ferimentos, ela não sabe se está preparada para voltar a passar pela via diariamente.
— Eu vou ficar com medo de passar ali, mas não tenho escolha. Não sei o que vou fazer, mas não estou pronta — conclui.
‘Explodiram’
Num vídeo postado numa rede social, uma passageira relata o pânico vivido durante o ataque:
“Olha, está tudo parado, está cheio de polícia. O meu ônibus é aquele ali. Os bandidos tacaram bomba dentro. Explodiram. Tem duas pessoas lá dentro ensanguentadas”.
O ataque ocorreu por volta das 21h. De acordo com a Polícia Militar, uma equipe do Batalhão de Policiamento em Vias Especiais (BPVE) foi acionada para o trecho em que o ônibus estava, na pista sentido Zona Oeste, altura da comunidade Joana D’Arc. A corporação informou que bandidos tentavam atear fogo no coletivo e acabaram lançando um explosivo artesanal contra o veículo.
Os PMs encontraram o ônibus com as janelas quebradas e os três passageiros feridos. O Corpo de Bombeiros foi acionado às 21h38. Equipes do quartel de Guadalupe, com o apoio de agentes do quartel de Irajá, socorreram as vítimas.
Segundo a PM, o policiamento permanece reforçado na região do ataque. A ocorrência foi encaminhada para a 39ª DP (Pavuna).
Sindicato cita ‘inação’ do estado
Em nota, o Rio Ônibus lamentou o episódio e afirmou que “passageiros e rodoviários perderam o direito de ir e vir na cidade do Rio de Janeiro”. O sindicato das empresas de ônibus criticou ainda a política de segurança pública do estado, citando “inação” e ser “escancarada por episódios de violência”:
“O setor que sofria com ônibus incendiados por criminosos, agora é alvo de granada. Passageiros e rodoviários perderam o direito de ir e vir na cidade do Rio de Janeiro. Diariamente, a inação do Estado sobre questões de Segurança Pública é escancarada por episódios de violência extrema. O crime e o medo, infelizmente, viraram rotina, assim como as vítimas têm virado estatística. O Rio Ônibus lamenta profundamente o ocorrido e reforça o apelo para que as autoridades competentes tomem as devidas providências com urgência”.
Fonte: EXTRA