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Coluna: A Ousadia de Fracassar — Se Eu Pudesse Voltar no Tempo

Texto de Paulo Martare.

Atualizado há 58 minutos

Na ousadia de fracassar, me peguei perguntando: Se eu tivesse a oportunidade de voltar no tempo, o que eu faria?
Essa é uma pergunta que parece simples, mas carrega um terremoto por dentro. Muita gente responde rápido: 
“Não mudaria nada, porque sou quem sou por causa do que vivi”. 
E essa resposta tem a sua beleza. Os erros, as quedas, os amores mal resolvidos, as escolhas tortas — tudo isso nos construiu.
Mas, sendo honesto, é impossível voltar ao passado e fazer exatamente tudo igual. Primeiro, porque nós não iríamos querer sofrer de novo o que sofremos. Não iríamos querer reviver certas dores, repetir certas ausências, certas perdas, certas feridas.
No cinema, a ficção científica tornou essa fantasia palpável. Em Regresso ao Futuro (1985), escrito por Bob Gale e realizado por Robert Zemeckis, o jovem Marty McFly (Michael J. Fox) viaja no tempo a bordo do icónico DeLorean criado pelo cientista Doc Brown (Christopher Lloyd). No ecrã, alterar o passado parece uma aventura com regras claras: uma fotografia que se apaga, um almanaque de desporto que muda a fortuna de alguém, a hipótese mecânica de "consertar" o destino dos pais.
Mas, na vida real, mexer no que já foi seria profundamente injusto. Injusto com quem machucamos. Ter a chance de voltar, de saber onde erramos, de entender onde ferimos — e mesmo assim repetir tudo, só para garantir o conforto do futuro que temos hoje — isso não seria maturidade, seria egoísmo. Voltar no tempo não seria apenas uma chance de evitar dores pessoais. Seria, sobretudo, uma chance de não causar dores desnecessárias aos outros.
E aqui mora o dilema: se mudamos o passado, mudamos o futuro. Se mudamos o futuro, talvez não sejamos mais quem somos agora. Mas quem disse que isso seria ruim? Existe um apego à identidade construída pela dor, como se só fosse possível existir através do sofrimento.
Em uma das cenas mais emblemáticas de Matrix (1999), as irmãs Lana e Lilly Wachowski dão-nos a imagem perfeita dessa estagnação. Debaixo de uma chuva implacável dentro de um carro, a personagem Trinity (Carrie Anne Moss) abre a porta para Neo (Keanu Reeves). Ele hesita, com medo do desconhecido e da verdade que ela lhe oferece. Trinity diz-lhe que, se ele quiser desistir e descer do carro, pode ir. Mas deixa o aviso crucial: ele já esteve ali, ele já conhece aquela rua, sabe exatamente onde ela termina e sabe que não é onde ele quer estar.
Insistir no erro passado é escolher caminhar, repetidamente, por essa mesma rua escura cujo fim já conhecemos.
Na música dos Engenheiros do Hawaii, Humberto Gessinger traduz esse mesmo impasse ao cantar: “Se eu soubesse antes o que sei agora / Erraria tudo exatamente igual”. 
Essa frase parece afirmar que nada mudaria, que a vida é assim mesmo. Mas, mais adiante, ele canta: “Se eu soubesse antes o que sei agora / Iria embora antes do final”. 
E aí tudo muda. Se ele fosse embora antes do final, é porque, sabendo o que sabe hoje, ele não permaneceria em certos lugares. Ele desceria do carro. Não insistiria em certas dores, não sustentaria certas ausências. Ou seja: ele mudaria, sim.
Talvez a verdade esteja nesse meio-termo delicado. Não voltaríamos ao passado para apagar tudo, nem para repetir tudo. Voltaríamos para ajustar. Para sair antes de onde nos ferimos demais. Para não permanecer onde já sabíamos que não havia mais amor. Para pedir perdão mais cedo. Para amar com menos medo. Para dizer o que ficou engasgado — e para calar o que machucou.
Principalmente, voltaríamos com a consciência de que a vida não é um contrato fixo com o sofrimento. Ela é uma travessia viva, que poderia ter sido diferente — e que, no fundo, ainda pode ser.
Talvez a pergunta não seja: “Se eu pudesse voltar no tempo, o que faria?”. 
Se resgatarmos a sabedoria de Sócrates provocada pelo Oráculo de Delfos, descobrimos que a verdadeira sabedoria não nasce de prever o destino, mas do autoexame. Diante do portal que ordenava "Conhece-te a ti mesmo", o filósofo percebeu que a consciência é o nosso maior guia. Trazer essa provocação para os dias de hoje nos daria uma pergunta muito melhor: “Agora que sei o que sei, o que faço diferente daqui para frente?”
Porque a única forma ética de “voltar ao passado” é agir diferente no presente. É preciso reparar hoje o que não foi cuidado ontem. Não repetir hoje o que já sabemos que machuca. Quando a vida nos abrir a porta do carro no presente, temos de ter a coragem de não voltar a pisar a rua que já conhecemos.
A vida não nos dá o DeLorean de Doc Brown. Mas nos dá algo ainda mais radical: consciência. E, com ela, a chance de não errar tudo exatamente igual.

Coluna de Paulo Martare, que é professor de artes visuais e profissional de artes e letras. 
Siga o trabalho dele nas redes sociais @paulomartare .
Foto do Jornalista

Rayza Espírito Santo

Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.

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