ARTIGO 1 — TERRA GOYTACÁ | PARTE I /Foto Divulgação
Pelo antigo Rio Iguaçu: Uma expedição pelas águas esquecidas da Planície Goitacá
Da Ponte Maria da Rosa à Barra do Açu, a navegação revela um território em que GPS, memória, pesca artesanal e natureza se encontram na reconstrução de uma antiga paisagem fluminense
Atualizado há 13 dias
Por Paulo Renato de Almeida Celestino
Às 9h19 do dia 1º de julho de 2026, embarcamos no pequeno barco do pescador Gustavo Quixaba para iniciar uma viagem que era, ao mesmo tempo, geográfica e histórica. O destino era a barra da Lagoa do Açu. Mas a verdadeira busca estava debaixo das águas e atrás dos nomes atuais da paisagem: percorrer parte do caminho do antigo Rio Iguaçu, curso hídrico que durante séculos ajudou a moldar a Planície Goitacá.
Nosso ponto de partida foi a Ponte Maria da Rosa, na região do Farol de São Tomé, em Campos dos Goytacazes. Hoje, o local integra a paisagem protegida pelo Parque Estadual da Lagoa do Açu — PELAG. O próprio Instituto Estadual do Ambiente identifica Maria da Rosa como uma área de fácil acesso à lagoa e destaca a presença de um dos mais preservados trechos de mangue do parque.
Na véspera da viagem, Gustavo já havia feito um alerta. Não bastaria colocar o destino no GPS e apontar o barco para a barra.
“Você vai ter que andar com um mapa... um GPS ligado para você ir me informando porque aqui têm vários braços de rio, várias entradas”, explicou em mensagem de áudio. Havia trechos rasos, caminhos aparentemente navegáveis e pontos onde o barco poderia encalhar. A rota teria que acompanhar aquilo que ele chama de “canais do rio”.
Aquela advertência antecipava uma das descobertas mais importantes da expedição: naquelas águas, tecnologia e conhecimento tradicional cumprem funções diferentes.
O GPS informava nossa posição. Gustavo lia o território.
Ele observava a profundidade da água, a direção do canal, a vegetação das margens, os estreitamentos e as curvas. Sabia reconhecer onde havia passagem e onde aquilo que parecia ser uma continuação do caminho escondia apenas água rasa ou terreno assoreado.
No mapa, seria fácil imaginar uma trajetória praticamente reta em direção à barra. Dentro do barco, entretanto, o antigo Iguaçu obrigava-nos a obedecer à sua própria geografia.
Logo nos primeiros minutos, o percurso começou a revelar uma paisagem surpreendente. As águas escuras avançavam entre margens cobertas pela vegetação. Árvores e arbustos aproximavam-se do canal; em determinados pontos, galhos quase tocavam sua superfície. Em outros, o corredor aquático se alargava e dava lugar a extensos espelhos d'água.
Era impossível compreender aquele território olhando apenas para uma representação cartográfica.
A Lagoa do Açu integra hoje um sistema ambiental de grande relevância. O Parque Estadual da Lagoa do Açu foi criado em 2012 e protege áreas de Campos dos Goytacazes e São João da Barra, incluindo remanescentes de restinga, áreas úmidas, manguezais, a própria lagoa e o Banhado da Boa Vista.
Mas a paisagem atual é resultado de profundas transformações.
Pesquisas históricas e ambientais mostram que a Lagoa do Açu foi, originalmente, parte de um curso conhecido como Rio Iguaçu — ou Açu. Ele recebia contribuições da Lagoa Feia e, durante grandes cheias, de braços associados ao Paraíba do Sul. Intervenções de drenagem, abertura de canais e, posteriormente, obras realizadas pelo antigo Departamento Nacional de Obras de Saneamento modificaram radicalmente essa rede. Com a redução da vazão e o isolamento de antigas conexões, o rio perdeu força para romper regularmente o cordão arenoso junto ao oceano e terminou configurado como a lagoa que conhecemos atualmente.
Assim, navegar pela Lagoa do Açu não significava apenas atravessar um ambiente natural.
Estávamos percorrendo o que restou de um rio.
Às 9h56, exatamente 37 minutos depois de sairmos da Ponte Maria da Rosa, o cenário voltava a mudar. O espelho d'água que pouco antes parecia amplo começava novamente a se fechar. A vegetação avançava pelas margens e o barco entrava outra vez em um corredor sinuoso.
À nossa frente, uma curva escondia completamente a continuação do percurso.
Era como se a própria paisagem recusasse revelar o caminho inteiro.
A cada trecho, o antigo Iguaçu apresentava uma nova configuração: canais estreitos, áreas abertas, braços secundários, vegetação de restinga, mangue, taboas e águas cuja profundidade não podia ser determinada apenas pela aparência. Estudos realizados na lagoa registram justamente essa associação entre vegetação de restinga, espécies características de mangue e macrófitas aquáticas como a taboa.
Ali começávamos a entender algo que nenhum mapa poderia ensinar.
Durante gerações, pescadores aprenderam a navegar por uma geografia móvel. A água sobe e baixa. A areia se desloca. A vegetação avança. Um canal pode se tornar raso. Outro pode novamente oferecer passagem.
Por isso, enquanto o GPS nos dizia onde estávamos, Gustavo Quixaba sabia onde era possível passar.
E naquele labirinto de águas da Planície Goitacá, essa diferença poderia determinar toda a expedição.

Paulo Celestino
Paulo Celestino, jornalista e produtor audiovisual com um longo histórico de contribuições para a mídia e cultura. Jornal Gazeta do Leste Fluminense, fundador de rádios locais. Idealizador dos sites gazeta24horasrio.com.br e sicomfilmes.com.br
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