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Imagem da notícia Ponto de partida: Paulo Renato e o barqueiro e pescador Gustavo Quixaba/Foto/Divulgação

O rio que virou lagoa: nas águas do Açu, uma paisagem guarda séculos de história

Expedição pelo antigo Rio Iguaçu revela como intervenções humanas transformaram a hidrografia da Planície Goitacá — e como o conhecimento dos pescadores preserva uma cartografia que não existe nos mapas

Atualizado há 2 dias

 

Expedição pelo antigo Rio Iguaçu revela como intervenções humanas transformaram a hidrografia da Planície Goitacá — e como o conhecimento dos pescadores preserva uma cartografia que não existe nos mapas

Quem observa a Lagoa do Açu atualmente pode imaginar que aquele extenso corpo d'água sempre esteve ali com a mesma configuração. A paisagem, porém, guarda outra história.

Antes de ser lagoa, foi rio.

Ponto de partida: Paulo Renato e o barqueiro e pescador Gustavo Quixaba/Foto/Divulgação
Ponto de partida: Paulo Renato e o barqueiro e pescador Gustavo Quixaba/Foto/Divulgação

 O antigo Rio Iguaçu, também conhecido posteriormente como Rio Açu, integrava uma extraordinária rede de lagoas, rios, brejos, banhados e canais naturais que caracterizava a planície litorânea entre Campos dos Goytacazes e São João da Barra.

A expedição realizada em 1º de julho de 2026 procurou reconstruir parte dessa geografia navegando pelas próprias águas.

Partimos da Ponte Maria da Rosa, em uma pequena embarcação conduzida pelo pescador Gustavo Quixaba, em direção à barra. Desde os primeiros quilômetros ficou evidente que aquela não seria simplesmente uma viagem entre dois pontos.

Era uma investigação sobre a paisagem.

Durante séculos, as águas da Planície Goitacá buscaram diferentes caminhos até o Atlântico. Pesquisas históricas registram que o antigo Iguaçu recebia contribuições relacionadas à Lagoa Feia e ao sistema do Paraíba do Sul. Sua vazão chegou a permitir que sua barra fosse utilizada por embarcações de porte considerável para os padrões da época.

Ponto de partida: Paulo Renato e o barqueiro e pescador Gustavo Quixaba/Foto/Divulgação
Ponto de partida: Paulo Renato e o barqueiro e pescador Gustavo Quixaba/Foto/Divulgação

 Esse mundo de águas começou a ser transformado pelas intervenções humanas.

Ainda no período colonial foram abertas valas e canais para facilitar o escoamento das áreas alagadas. Séculos mais tarde, principalmente durante as grandes obras de drenagem do século XX, a hidrografia regional sofreria alterações ainda mais profundas. Canais artificiais passaram a conduzir águas para novos destinos, antigas ligações foram interrompidas e áreas permanentemente ou sazonalmente inundadas foram drenadas para ampliar terras destinadas às atividades econômicas.

O resultado dessas transformações ainda pode ser observado.

O Rio Iguaçu perdeu parte das conexões que alimentavam sua vazão. Incapaz de manter a antiga dinâmica fluvial e de romper com regularidade a faixa arenosa que o separava do oceano, seu trecho costeiro assumiu progressivamente as características da atual Lagoa do Açu.

Nossa viagem, portanto, acontecia sobre uma espécie de arquivo líquido da história regional.

Cada curva parecia conservar alguma coisa da velha geografia.

Quando o barco entrava nos canais mais estreitos, a vegetação fechava o horizonte. Pouco depois, surgiam grandes áreas abertas de água. O percurso alternava ambientes diferentes em uma escala de poucos minutos.

E então surgia uma questão: como navegar por um território que continua se transformando?

A resposta estava ao nosso lado.

Gustavo não possuía apenas experiência na condução do barco. Carregava um conhecimento acumulado a partir da convivência cotidiana com o ambiente.

“Tem várias entradas de rio que está baixo”, havia explicado antes da viagem.

Durante a navegação, suas palavras ganharam sentido.

Uma entrada perfeitamente identificável no GPS não significava necessariamente uma passagem possível. Alguns braços eram rasos. Outros estavam parcialmente assoreados. Em determinadas áreas, apenas um canal mais profundo permitia a passagem segura.

Esse conhecimento pertence a uma tradição antiga das populações que vivem próximas aos ambientes costeiros.

Antes dos mapas digitais, antes das cartas hidrográficas e muito antes dos satélites, seres humanos já aprendiam a interpretar marés, vegetação, vento, profundidade e comportamento das águas.

A arqueologia demonstra que essa relação entre populações humanas e ambientes costeiros no território hoje pertencente ao Estado do Rio de Janeiro existe há milhares de anos. Um exemplo extraordinário é o Sambaqui da Tarioba, em Rio das Ostras. Identificado pelo Instituto de Arqueologia Brasileira em 1967, o sítio conserva vestígios de populações que exploravam recursos de ambientes costeiros, fluviais e de mangue há aproximadamente quatro mil anos. Pesquisas arqueológicas recentes apontam fases de ocupação situadas aproximadamente entre 3.974 e 3.199 anos antes do presente.

Ponto de partida: Paulo Renato e o barqueiro e pescador Gustavo Quixaba/Foto/Divulgação
Ponto de partida: Paulo Renato e o barqueiro e pescador Gustavo Quixaba/Foto/Divulgação

 O Sambaqui da Tarioba não está na área percorrida por nossa expedição e não deve ser confundido com um vestígio arqueológico específico do antigo Rio Iguaçu. Sua importância para esta investigação é outra: ele demonstra a profundidade temporal da relação humana com os ecossistemas costeiros fluminenses.

É justamente essa perspectiva que amplia o sentido de Terra Goytacá.

O território não começa quando aparecem as cidades.

Muito antes das estradas, dos canais artificiais, das fazendas e das divisões municipais, havia povos vivendo, pescando, coletando, navegando e interpretando esses ambientes.

Milhares de anos depois, em nossa pequena embarcação, a relação fundamental continuava reconhecível.

De um lado, um GPS conectado a satélites indicava nossa posição com precisão extraordinária.

Do outro, Gustavo observava a água.

E bastavam alguns minutos de navegação para compreender que um não substituía o outro.

O equipamento conhecia as coordenadas.

O pescador conhecia o rio.

Mesmo que oficialmente aquele rio agora seja chamado de Lagoa do Açu.

Pescador Gustavo Quixaba: (22) 99705-8567.

Foto do Jornalista

Paulo Celestino

Paulo Celestino, jornalista e produtor audiovisual com um longo histórico de contribuições para a mídia e cultura. Jornal Gazeta do Leste Fluminense, fundador de rádios locais. Idealizador dos sites gazeta24horasrio.com.br e sicomfilmes.com.br

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