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Imagem da notícia Novo mapa-múndi aprovado pela ONU/Imagem: Reprodução

ONU aprova iniciativa para corrigir distorções do mapa-múndi

Resolução liderada por Togo recebeu 164 votos favoráveis; Estados Unidos foram o único país a votar contra a iniciativa.

Atualizado ontem

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou na sexta-feira (04/09), por 164 votos a favor, uma resolução que incentiva a adoção de mapas capazes de representar com maior precisão o tamanho dos continentes. Os Estados Unidos foram o único país a votar contra a proposta, enquanto seis nações se abstiveram.

Liderada pelo Togo e apoiada pelos 54 países da União Africana (UA), a iniciativa conhecida como “Corrija o mapa” (#CorrectTheMap) questiona o uso disseminado da projeção de Mercator, criada no século 16 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator para facilitar a navegação marítima.

A votação não obriga governos ou instituições a abandonar o modelo tradicional. A resolução, porém, recomenda que organizações internacionais, governos e outras entidades considerem representações cartográficas que mostrem de maneira mais fiel as dimensões das massas de terra.

Sobreposição das versões dos mapas: em azul escuro, o real tamanho dos países; em azul claro, como eram no mapa anterior/Imagem: Reprodução
Sobreposição das versões dos mapas: em azul escuro, o real tamanho dos países; em azul claro, como eram no mapa anterior/Imagem: Reprodução

Por que o mapa de Mercator é questionado?

O problema está nas distorções provocadas pela tentativa de representar uma superfície esférica em um plano. Na projeção de Mercator, quanto mais uma região se aproxima dos polos, maior ela parece no mapa. Em contrapartida, áreas próximas à Linha do Equador aparecem proporcionalmente reduzidas.

O efeito pode ser observado na comparação entre a África e a Groenlândia. Embora a África tenha uma área aproximadamente 14 vezes maior, as duas regiões aparecem com dimensões visuais semelhantes em mapas baseados na projeção de Mercator.

A distorção também afeta a percepção de outras regiões próximas ao Equador, entre elas partes da América Latina, enquanto territórios do Norte da Europa e da América do Norte ganham proporções visuais maiores.

A projeção, entretanto, não foi criada para representar áreas com precisão. Seu principal objetivo era preservar determinadas relações de direção e ângulo, características úteis para a navegação marítima. Por isso, seu uso histórico está relacionado às necessidades dos exploradores europeus.

Equal Earth busca mostrar proporções reais

Uma das alternativas defendidas pela campanha é a Equal Earth, ou “Terra Igual”, uma projeção de áreas equivalentes desenvolvida em 2018 por uma equipe de cartógrafos. O modelo procura preservar melhor as proporções entre as superfícies dos continentes, reduzindo as diferenças visuais provocadas pela projeção de Mercator.

A proposta ganhou respaldo da União Africana. Em fevereiro, os 54 países-membros do bloco adotaram um acordo segundo o qual a representação baseada em áreas iguais apresenta de maneira mais precisa as dimensões dos continentes, especialmente da África.

A campanha #CorrectTheMap usa uma comparação para evidenciar a diferença: segundo os organizadores, seria possível acomodar no território africano os Estados Unidos, a China, a Índia, o Japão, o México e grande parte da Europa, ainda restando espaço.

À esquerda, a África no mapa Mercator e à direita, o continente no novo mapa aprovado pela ONU/Imagem: Reprodução
À esquerda, a África no mapa Mercator e à direita, o continente no novo mapa aprovado pela ONU/Imagem: Reprodução

Mapas também influenciam a percepção do mundo

A resolução da ONU sustenta que mapas não são apenas instrumentos de localização. As representações cartográficas utilizadas em escolas, meios de comunicação, documentos e plataformas digitais também participam da formação da percepção sobre os diferentes territórios.

Para os defensores da mudança, a distorção das áreas pode produzir consequências cognitivas, educacionais e culturais e contribuir para uma percepção desigual sobre a importância e as dimensões de determinadas regiões. O debate também ganhou uma dimensão política e econômica.

A ativista Lerato Mogoatlhe, da organização Africa No Filter, afirmou que a representação da África nos mapas vai além de um problema técnico e envolve uma disputa de narrativas. O geógrafo queniano Kioko Muendo também argumenta que a projeção pode minimizar, de forma indireta, a percepção sobre os recursos, a população e o potencial econômico do continente africano.

A discussão foi associada pela resolução ao Pacto para o Futuro, aprovado pelos países-membros da ONU em 2024 e voltado a iniciativas para enfrentar desigualdades históricas e estruturais.

Togo defende “mapa justo”

O Togo, país da África Ocidental que liderou a proposta, apresentou a mudança como parte de um debate mais amplo sobre a maneira como povos e territórios são representados.

Antes da votação, o ministro das Relações Exteriores togolês, Robert Dussey, declarou à Reuters: “Um mundo justo começa com um mapa justo”.

A posição também recebeu apoio da França. O ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Noël Barrot, afirmou que sua pasta deixaria de utilizar a projeção de Mercator. Segundo ele, alterar o mapa não transforma a realidade, mas corrigir uma representação que a distorce seria uma forma de reconhecer os fatos.

Estados Unidos criticam resolução

Os Estados Unidos foram o único país a votar contra a proposta. A representante estadunidense na ONU, Yaryna Ferencevych, criticou a iniciativa e afirmou que a Assembleia Geral deveria concentrar seus esforços em questões relacionadas à paz, à prosperidade e às relações internacionais.

Segundo Ferencevych, o debate sobre projeções cartográficas e conceitos como “justiça cognitiva” desviaria a atenção de problemas considerados mais urgentes.

A divergência ocorre em meio a outros atritos recentes entre Washington e iniciativas apoiadas por países africanos na ONU. Em março, os Estados Unidos também criticaram uma resolução que classificou o tráfico transatlântico de escravizados como o crime mais grave contra a humanidade.

Comparação entre as proporções dos mapas/Imagem: Reprodução
Comparação entre as proporções dos mapas/Imagem: Reprodução

Mudança não será imediata

Apesar da aprovação, o mapa de Mercator não deixará de ser utilizado automaticamente. A resolução da Assembleia Geral tem caráter não vinculante e não estabelece uma obrigação legal para que governos, escolas, empresas ou organizações substituam seus mapas.

A decisão abre, porém, espaço para que instituições passem a adotar projeções de áreas iguais ou outros modelos cartográficos em materiais educacionais, documentos e representações digitais.

A discussão também expõe uma característica fundamental da cartografia: não existe uma maneira de transformar perfeitamente um globo em uma superfície plana. Toda projeção precisa escolher quais características preservar e quais distorcer.

Nesse sentido, a disputa em torno do mapa-múndi não significa apenas escolher entre desenhos diferentes da Terra. Ela envolve decidir quais informações uma representação deve priorizar, e como uma imagem utilizada cotidianamente pode influenciar a maneira como sociedades enxergam seu próprio espaço no planeta.

Foto do Jornalista

Rayza Espírito Santo

Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.

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