Foto: Divulgação
Rua de Porto Alegre virou símbolo de preservação e beleza urbana mundial
Mobilização de moradores evitou a retirada das árvores e preservou o calçamento histórico.
Atualizado ontem
No bairro Independência, em Porto Alegre (capital do Rio Grande do Sul), um túnel formado por árvores com até 18 metros de altura cobre cerca de 500 metros da Rua Gonçalo de Carvalho. Conhecida como “a rua mais bonita do mundo”, a via reúne preservação ambiental, arquitetura histórica e uma história de mobilização de moradores.
O apelido surgiu em março de 2008, quando o biólogo português Pedro Nuno Teixeira Santos encontrou fotografias da rua na internet. Impressionado com a paisagem, publicou um texto no blog pessoal Sombra Verde, no qual afirmou que quase lhe vieram lágrimas aos olhos diante das imagens. A expressão “a rua mais bonita do mundo” acabou se espalhando por blogs e veículos ligados a arquitetura, sustentabilidade e turismo.
A fama internacional, porém, veio depois de uma conquista local. Em 5 de junho de 2006, o então prefeito José Fogaça assinou o Decreto Municipal nº 15.196, que declarou a Gonçalo de Carvalho Patrimônio Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental de Porto Alegre. A medida surgiu após moradores se mobilizarem contra um projeto de estacionamento que ameaçava parte da arborização.
A proteção impediu o corte das árvores e o asfaltamento da via, preservando também o calçamento de paralelepípedos e pedras de granito. Em 2012, a chamada Lei dos Túneis Verdes ampliou a proteção para cerca de 70 vias arborizadas da capital gaúcha.
A arborização começou no fim da década de 1930, com a participação de trabalhadores de origem alemã ligados a uma antiga cervejaria da região. Há também registros sobre a possível participação de moradores no plantio.
Atualmente, a rua tem 156 árvores catalogadas, principalmente tipuanas (Tipuana tipu), além de espécies como pitangueiras, chal-chal e figueiras-benjamim. As copas se encontram acima da via e criam um corredor contínuo de sombra entre as ruas Ramiro Barcelos e Santo Antônio.
O calçamento de pedras também tem função ambiental: permite a infiltração da água da chuva e contribui para a irrigação das raízes. Segundo dados municipais citados no levantamento, apenas três das 156 árvores apresentam estado fitossanitário considerado ruim.
A paisagem ainda muda ao longo do ano. No verão, a copa densa cria sombra e temperaturas mais amenas; no outono, as folhas amarelas cobrem os paralelepípedos. No inverno, a abertura dos galhos deixa as fachadas históricas mais visíveis, enquanto a primavera é marcada pela floração amarela das tipuanas.
Assim, a Rua Gonçalo de Carvalho combina uma paisagem urbana preservada com uma história de mobilização comunitária. E seu título mais famoso não nasceu de concurso, votação ou ranking: surgiu de uma publicação feita a milhares de quilômetros de distância, em Portugal.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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