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Coluna: A Ousadia de Fracassar – A Arte de Cair
Texto de Paulo Martare.
Atualizado há 1 horas
O medo de errar quase nunca nasce do erro em si. Nasce do julgamento. Não é o tombo que paralisa a gente, mas o olhar dos outros — e aquele pior ainda que aprendemos a lançar no espelho.
Crescemos engolindo a regra invisível de que fracassar é vergonha. Bobagem. Deveria ser percurso, caminhada normal. No fundo, só fracassa quem põe a cara para bater. Quem não tenta se esconde atrás de uma desculpa conveniente e resolve chamar isso de prudência. Aristóteles falava que a virtude está no meio do caminho, mas esqueceu de avisar que o chão desse caminho é cheio de pedras. Tropeçar não é desvio. É o mapa.
Esse medo de falhar adora se disfarçar de maturidade. Ele chega de mansinho, sussurrando defesas: “melhor esperar mais um pouco”, “ainda não é a hora”, “quando eu estiver pronto”. Spoiler: ninguém nunca está pronto para viver. A vida não quer ensaio, ela exige o corpo presente.
Nietzsche dizia que é preciso ter um caos dentro de si para parir uma estrela dançante. O caos assusta, tira o chão, mas é o único lugar onde o novo tem espaço para nascer. Onde não há risco de queda, o voo nem acontece. Clarice Lispector também tateou isso ao escrever que desejava uma liberdade que ainda nem tinha nome. O medo do fracasso é, na verdade, o pavor dessa liberdade sem garantias, sem manual impresso.
Nessa nossa pressa ocidental, quem quebra três empresas e recomeça ganha o rótulo de instável ou fracassado. A história vira sentença. Já do outro lado do mundo, em culturas como a japonesa, essa mesma trajetória é vista como patrimônio. O erro lá não desqualifica; ele dá casca, dá bagagem prática. Quem caiu muito aprendeu o caminho das pedras e está um passo mais perto de acertar. Não que eles não sofram com a queda, claro que sofrem. Mas a pergunta muda. Em vez de buscarem culpados com um “Por que deu errado?”, eles olham para frente: “O que dá para extrair disso?”.
No meu livro, A Ousadia de Fracassar: Um Mergulho no Mundo da Palhaçaria, eu cutuco exatamente essa ferida. O palhaço não tem medo do ridículo. Ele ousa errando e, se cai, transforma o tombo em jogo, em poesia, em cúmplice com a plateia. Ele expõe a própria fragilidade sem armadura nenhuma e entende que o erro não é o fim do espetáculo — às vezes, é exatamente ali que o show começa de verdade.
No cinema, o professor Keating, de Sociedade dos Poetas Mortos, gritava o famoso Carpe Diem para tornar as vidas extraordinárias. Só esqueceram de colocar na legenda que uma vida extraordinária dá um trabalho danado e envolve se quebrar, se perder e ter que se colar de novo várias vezes.
Escondemos nossas tentativas por medo de parecer fracos. Só que o medo não some quando a gente recua; ele só muda de endereço. Vira aquela frustração silenciosa que morde de noite, uma amargura fantasiada de rotina e uma saudade danada do que a gente nem teve coragem de viver. Isso machuca muito mais do que qualquer tombo.
Os estoicos batiam na tecla de que não controlamos os resultados, só as nossas ações. O fracasso não é o oposto do sucesso, é o chão onde ele aprende a andar.
E a verdade que ninguém quer confessar é que muita gente não tem medo de fracassar. Tem medo de tentar. Tentar exige exposição, exige sair da segurança do sofá e subir no palco da própria vida. Exige aceitar que podemos despencar, mas também que podemos voar. Viver é isso: atravessar a lona do circo sem saber direito onde pisa, saltar no trapézio sem rede de proteção embaixo e apostar no número sem contrato assinado com o aplauso. O risco é o que separa o teatro da vida real.
Lidar com o medo não é apagá-lo da mente, é aprender a caminhar de mãos dadas com ele. É olhar para ele e dizer: “Eu sei que você está aí, mas eu vou assim mesmo”. Coragem nunca foi falta de medo. É decisão.
Morrer sem ter vivido por inteiro é o único fracasso que eu considero insuportável.
Fracassar é humano.
Tentar é divino.
Viver, de verdade, é aceitar o risco da queda — sem abrir mão do direito de levantar.
Sobre o autor
Paulo Martare é professor de artes visuais e profissional de artes e letras. Acompanhe seu trabalho no @paulomartare .

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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