Discurso da vitória de Lula em ato na capital de SP/Foto: Rafael Peixoto
Lula vence eleição com recorde de votos e Flávio Bolsonaro anuncia pedido de anulação
Presidente recebeu 64,2 milhões de votos e derrotou o adversário por 4,4 milhões de votos. Senador do PL não reconheceu o resultado e contestou a extensão do horário de votação, medida que também havia sido solicitada por sua campanha.
Atualizado há 2 horas
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República neste domingo (25/10), após uma virada histórica no segundo turno das eleições de 2026. Com 100% das seções apuradas, o petista recebeu 64.256.232 votos, o equivalente a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos de Flávio Bolsonaro (PL), que obteve 48,21%. A diferença de 4.430.191 votos garantiu a Lula um quarto mandato presidencial e a maior votação já registrada por um candidato ao Palácio do Planalto no país.
Derrotado nas urnas, Flávio afirmou que não reconhece o resultado e anunciou que pretende pedir a anulação da eleição à Justiça. A contestação tem como principal argumento a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, que determinou a extensão do horário de votação até as 19h em seções eleitorais que ainda estavam abertas.
A iniciativa, no entanto, envolve uma contradição política: a campanha de Flávio também havia solicitado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a ampliação do horário de votação, assim como a coligação de Lula. Enquanto os aliados do petista apontaram dificuldades no transporte público em cidades como São Paulo e Salvador, a campanha do senador mencionou condições climáticas adversas em municípios do Sul e do Sudeste.
A decisão judicial ocorreu diante de relatos de problemas no deslocamento de eleitores. Inicialmente, a determinação previa a extensão do prazo em todas as seções eleitorais, mas, após informações de que diversas urnas já haviam sido encerradas, o procedimento foi delimitado às seções que permaneciam abertas. Os votos registrados anteriormente foram mantidos.
Flávio questiona resultado e promete recorrer à Justiça
Em pronunciamento realizado em Brasília, ao lado de aliados, Flávio Bolsonaro classificou a decisão de Zanin como uma interferência indevida no processo eleitoral. O senador argumentou que a diferença no horário de encerramento das seções teria comprometido a igualdade entre os eleitores de diferentes cidades e estados.
“É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram. Vamos usar nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições”, afirmou.
O candidato derrotado também criticou a atuação do ministro do STF, alegando que a mudança ocorreu quando a votação já estava próxima do encerramento previsto inicialmente, às 17h. Flávio questionou a competência de Zanin para determinar a prorrogação e sustentou que não seria possível saber quantos votos teria recebido caso o procedimento tivesse sido diferente.
Apesar de ter obtido quase 60 milhões de votos, o senador não mencionou o volume de eleitores que o apoiaram durante o pronunciamento e deixou o local sem responder às perguntas dos jornalistas.
A contestação anunciada pelo candidato do PL, entretanto, não significa que a eleição será anulada. Especialistas em Direito Eleitoral ouvidos pela revista eletrônica Consultor Jurídico avaliam que uma eventual ação precisaria apresentar provas concretas de irregularidades e demonstrar que elas tiveram impacto relevante no resultado. A diferença superior a 4,4 milhões de votos entre os candidatos é apontada como um dos principais obstáculos a uma tentativa de anulação geral.
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou que a extensão do horário não provocou alterações na totalização dos votos. Segundo ele, as providências adotadas permitiram a continuidade da votação nas seções ainda abertas, sem modificar os resultados registrados nas urnas que já haviam sido encerradas.
Especialistas veem obstáculos para anulação geral
Advogados eleitoralistas ouvidos pela Consultor Jurídico avaliam que eventuais questionamentos podem ser apresentados à Justiça, mas a anulação de toda a eleição exigiria demonstração de que as irregularidades foram capazes de alterar o resultado da disputa.
O advogado Israel Nonato, que atua nas áreas de Direito Eleitoral, Constitucional e Processo Legislativo, observa que uma contestação baseada na mudança do horário de votação pode recorrer ao princípio da segurança jurídica e ao artigo 16 da Constituição, que protege o processo eleitoral contra alterações de última hora.
Por outro lado, ele pondera que a extensão do horário também teve o objetivo de permitir que eleitores prejudicados pela falta de transporte público conseguissem votar. Na avaliação do especialista, um eventual questionamento sobre a abrangência da decisão judicial não justificaria automaticamente a invalidação de todos os votos registrados no segundo turno.
Nonato considera que uma contestação precisaria identificar as seções afetadas, comprovar quantos eleitores foram efetivamente impedidos de votar e demonstrar se a quantidade de votos em questão poderia alterar a classificação dos candidatos. O artigo 212 do Código Eleitoral prevê a possibilidade de novas eleições em situações nas quais votos anulados ou de eleitores impedidos de votar tenham alterado a classificação no pleito.
A advogada Amanda Cunha, especialista em Direito Eleitoral, também avalia que a diferença no horário de encerramento das seções, isoladamente, não é suficiente para justificar a anulação geral da eleição. Segundo ela, seria necessário apresentar elementos que comprovassem a relação entre a suposta irregularidade e um impacto significativo no resultado.
O professor de Direito Eleitoral da Fundação Getulio Vargas (FGV) Fernando Neisser considera que a margem superior a quatro milhões de votos dificulta a viabilidade de uma contestação com o objetivo de anular todo o segundo turno. Embora reconheça a possibilidade de questionamentos judiciais, ele não vê perspectiva de êxito para uma tentativa de invalidar o resultado nacional com base apenas na prorrogação.
Lula reverte desvantagem e amplia vantagem para 4,4 milhões
A vitória de Lula foi resultado de uma combinação de fatores, incluindo o aumento do comparecimento às urnas, a redução dos votos brancos e nulos, a transferência de parte dos votos dos candidatos eliminados no primeiro turno e o crescimento da votação petista em todas as unidades da Federação.
No primeiro turno, o presidente havia ficado 2,2 milhões de votos atrás de Flávio, a menor diferença entre os dois primeiros colocados nessa etapa desde a redemocratização. No segundo turno, o cenário se inverteu: Lula terminou com uma vantagem de 4,4 milhões de votos. A mudança representou uma oscilação de aproximadamente 6,6 milhões de votos na diferença entre os dois candidatos.
Entre as duas etapas da eleição, Lula recebeu cerca de 10,3 milhões de votos adicionais. Flávio também ampliou sua votação, mas em proporção menor: ganhou aproximadamente 3,7 milhões de votos. Do total de votos adicionais recebidos pelos dois candidatos, 73,6% foram destinados ao petista.
O crescimento de Lula superou, inclusive, a soma dos votos obtidos por todos os candidatos derrotados no primeiro turno. Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e os demais concorrentes reuniram aproximadamente 9,3 milhões de votos, cerca de um milhão a menos do que o avanço registrado pelo presidente.
Os números indicam que a migração dos eleitores dos candidatos eliminados, embora relevante, não explica sozinha o resultado. A mudança também foi influenciada pela participação de eleitores que não haviam comparecido à primeira votação e pela diminuição dos votos brancos e nulos.
Comparecimento cresce e abstenção cai ao menor nível em 20 anos
A participação eleitoral foi outro componente importante da virada. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,21% no segundo, alcançando o menor índice em duas décadas. Com isso, aproximadamente 2,83 milhões de eleitores a mais compareceram às urnas.
No mesmo período, o total de votos brancos e nulos recuou de 5,98 milhões para 4,15 milhões, uma redução de 1,83 milhão. Considerados em conjunto, o aumento do comparecimento e a diminuição dos votos inválidos acrescentaram aproximadamente 4,66 milhões de votos válidos à disputa.
O número de votantes aumentou em 4.858 municípios, cerca de 87% das cidades brasileiras. A tendência foi observada principalmente no Sul, no Sudeste, no Centro-Oeste e no litoral nordestino, regiões nas quais também ocorreram avanços expressivos da votação de Lula.
No Norte, especialmente no Acre, no Amazonas, em Roraima e no Pará, houve localidades com redução do comparecimento. Mesmo nessas áreas, porém, o saldo eleitoral do petista melhorou em relação ao primeiro turno.
Lula cresce em todos os estados e melhora resultado em 97% dos municípios
Lula ampliou sua votação em todos os estados e no Distrito Federal entre os dois turnos. O maior crescimento absoluto ocorreu em São Paulo, onde passou de 9.505.413 para 12.119.274 votos, um acréscimo de 2.613.861.
Minas Gerais aparece em seguida, com 1.162.163 votos adicionais, enquanto o Rio de Janeiro registrou um aumento de 872.372 votos para o presidente.
O avanço também se refletiu na distribuição dos resultados municipais. Lula melhorou seu saldo de votos em relação a Flávio em 5.410 dos 5.570 municípios brasileiros, aproximadamente 97% do total.
O petista conseguiu reverter o resultado do primeiro turno em 211 municípios nos quais Flávio havia terminado à frente. A capital fluminense está entre as cidades em que Lula conseguiu virar a disputa. O senador, por sua vez, conseguiu inverter o resultado em apenas um município.
Minas Gerais concentrou o maior número de cidades em que Lula reverteu a vantagem do adversário, com 76 municípios. Na sequência aparecem São Paulo, com 32; Paraná, com 20; e Rio Grande do Sul, com 19. Ao todo, houve inversões de resultado em municípios de 18 estados.
Minas também teve papel importante na definição da eleição presidencial. O estado, tradicionalmente acompanhado por analistas por sua semelhança com o resultado nacional, terminou com vitória de Lula, que recebeu 50,43% dos votos válidos, contra 49,57% de Flávio. No primeiro turno, o senador havia liderado a disputa em território mineiro.
Flávio perde votos em 939 cidades, apesar do crescimento nacional
Embora tenha ampliado sua votação no país, Flávio Bolsonaro recebeu menos votos no segundo turno do que no primeiro em 939 municípios. Somadas, essas localidades registraram uma redução de 134.091 votos para o candidato do PL.
O Maranhão liderou a lista, com 171 municípios em que o senador perdeu votos. Em seguida aparecem Tocantins, com 115; Piauí, com 110; Rio Grande do Norte, com 78; e Pará, também com 78.
A maior redução absoluta foi registrada em Macapá, no Amapá. Na capital, Flávio passou de 124.378 votos no primeiro turno para 120.593 no segundo, uma queda de 3.785 votos.
O resultado dessas cidades, porém, não representa uma perda nacional de eleitores. No conjunto do país, o senador passou de 56.104.503 votos no primeiro turno para 59.826.041 no segundo, um aumento de 3.721.538 votos, equivalente a 6,63%.
Nos mesmos 939 municípios em que Flávio perdeu votos, Lula ganhou 486.898 votos adicionais e ampliou sua votação em 863 cidades, o equivalente a 91,9% desse grupo.
O mapa das mudanças indica que os municípios em que Flávio avançou sobre Lula se concentraram principalmente no interior da Bahia, no norte de Minas Gerais e em trechos do sertão de Pernambuco e do Piauí. São áreas nas quais o presidente já havia registrado votações expressivas no primeiro turno, o que limitou sua margem de crescimento.
Nordeste concentra votação de Lula; Sudeste lidera entre eleitores de Flávio
A distribuição regional dos votos também evidencia diferenças entre as bases eleitorais dos dois candidatos. O Nordeste respondeu pela maior parcela da votação nacional de Lula, enquanto o Sudeste concentrou a maior proporção dos votos de Flávio Bolsonaro.
O presidente recebeu aproximadamente 24,45 milhões de votos no Nordeste, o equivalente a 38,17% de sua votação nacional, e 24,04 milhões no Sudeste, correspondentes a 37,53%. Juntas, as duas regiões reuniram 75,70% dos votos recebidos pelo petista no Brasil.
No Nordeste, Lula conquistou 69,37% dos votos válidos destinados aos dois candidatos. A região também registrou um crescimento expressivo da votação petista entre os turnos: o presidente passou de aproximadamente 21,5 milhões para 24,5 milhões de votos, um avanço de 13,75%.
No Sudeste, Flávio recebeu cerca de 26,84 milhões de votos, o equivalente a 45% de seu total nacional. O senador obteve 52,76% dos votos válidos destinados aos dois candidatos na região.
O Sul respondeu por 19,09% da votação nacional de Flávio, com aproximadamente 11,39 milhões de votos. O Nordeste concentrou outros 18,10%, ou 10,8 milhões.
Entre os eleitores de Lula, o Sul representou 10,63% do total nacional, com 6,81 milhões de votos. No Norte, o presidente recebeu aproximadamente 5,02 milhões, equivalentes a 7,84%, enquanto o Centro-Oeste contribuiu com 3,73 milhões, ou 5,83%.
A distribuição regional, somada aos avanços registrados em municípios de diferentes partes do país, contribuiu para que Lula superasse a vantagem inicial de Flávio e consolidasse a vitória no segundo turno.
Presidente bate recorde de votação e terá desafios a partir de 2027
Os 64,2 milhões de votos recebidos por Lula representam a maior votação já alcançada por um candidato à Presidência da República no Brasil. O resultado supera o recorde anterior, também pertencente ao petista, que recebeu aproximadamente 60,3 milhões de votos ao derrotar Jair Bolsonaro em 2022.
Naquela eleição, Lula venceu por uma diferença de cerca de 2,1 milhões de votos. Em 2026, a margem chegou a 4,4 milhões, apesar de o presidente ter começado o segundo turno atrás do adversário.
A vitória abre caminho para um quarto mandato presidencial de Lula, mas também apresenta desafios políticos. Um dos principais será negociar com um Congresso Nacional de maioria conservadora para viabilizar sua agenda a partir de 2027.
Após a confirmação do resultado, o presidente criticou Flávio Bolsonaro e voltou a defender a regulamentação das redes sociais, além de fazer críticas às grandes empresas de tecnologia, conhecidas como big techs.
Enquanto Lula inicia a preparação para o novo mandato, a estratégia de Flávio de contestar o resultado eleitoral deverá passar pelo exame da Justiça. Para que a iniciativa produza efeitos sobre o resultado proclamado, será necessário demonstrar, com elementos concretos, que eventuais irregularidades comprometeram a votação em dimensão suficiente para justificar uma medida judicial.
A diferença expressiva entre os candidatos, a extensão limitada da decisão às seções que permaneciam abertas e o fato de as duas campanhas terem solicitado a prorrogação do horário são fatores que devem integrar o debate jurídico sobre o caso.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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