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Imagem da notícia Bombeiros ucranianos em resgate após araque russo em 22/10/26 /Foto: Serhii Dilin

Rússia ataca Kiev horas após sinalizar retomada de diálogo de paz

Ataques com 21 mísseis balísticos deixaram ao menos dois mortos e 22 feridos, incluindo quatro crianças; Kremlin admite retomar diálogo com Ucrânia e Estados Unidos em novembro.

Atualizado há 1 horas

A Rússia lançou uma série de ataques com mísseis balísticos contra Kiev, capital da Ucrânia, na madrugada desta quinta-feira (22/10), poucas horas depois de anunciar disposição para retomar as negociações de paz com os ucranianos e os Estados Unidos. A ofensiva deixou ao menos dois mortos e 22 feridos, entre eles quatro crianças, e atingiu edifícios residenciais, instalações de energia e estruturas de transporte.

Segundo as autoridades ucranianas, os bombardeios ocorreram em três ondas, com o lançamento de 21 mísseis contra a capital. Entre os locais atingidos estão uma ponte sobre o rio Dnipro, uma estação de ambulâncias, prédios comerciais e um mosteiro. Os ataques também alcançaram outras 11 regiões do país, incluindo Odessa, no sul, onde foram registrados danos à infraestrutura. Equipes de emergência foram mobilizadas para combater incêndios e atender às vítimas.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, criticou a ofensiva e questionou a disposição russa para buscar uma solução diplomática. Em declaração, ele ironizou a descrição de Vladimir Putin como um “humanitário”, feita pelo enviado especial americano Steve Witkoff após uma reunião com o líder russo na véspera.

“Quase imediatamente após mais uma rodada de negociações, a Rússia lançou um ataque deliberado. Isso significa que não houve nenhuma mudança real em sua postura”, afirmou Zelensky.

Em paralelo, o Ministério da Defesa russo informou que as defesas aéreas do país derrubaram 808 drones ucranianos durante a madrugada, em diferentes regiões russas e na Crimeia, território anexado por Moscou em 2014. A informação foi divulgada pelas autoridades russas.

Putin admite retomar negociações em novembro

A possibilidade de reabrir o diálogo diplomático foi discutida na quarta-feira (21/10), durante um encontro de aproximadamente três horas entre Putin e Witkoff, em São Petersburgo. A reunião ocorreu um dia depois de o enviado americano conversar com Zelensky, na Noruega, sobre propostas para encerrar a guerra iniciada com a invasão russa em larga escala, em fevereiro de 2022.

Após o encontro, o assessor do Kremlin Yuri Ushakov afirmou que Moscou está disposta a retomar as negociações trilaterais com Washington e Kiev após 10 de novembro. Segundo ele, a criação de uma estrutura de segurança para Rússia e Ucrânia no período posterior ao conflito deverá estar entre os temas discutidos.

A próxima rodada poderá ocorrer em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos. A cidade sediou a última rodada oficial de negociações trilaterais, em fevereiro.

Witkoff classificou as conversas com Putin e Zelensky como “construtivas” e afirmou que os contatos diplomáticos devem continuar. O enviado e Jared Kushner, genro do presidente americano Donald Trump, apresentaram a proposta de uma nova reunião entre os três países, aceita pelos governos ucraniano e russo, segundo um comunicado americano.

“Embora ainda haja trabalho importante a ser feito, o presidente Trump continua comprometido em ver esta guerra terminar e alcançar uma paz abrangente e duradoura”, escreveu Witkoff na rede social X.

Zelensky, por sua vez, defendeu que o próximo encontro ocorra até o início de novembro. O presidente ucraniano afirmou que Moscou já havia demonstrado disposição para negociar em outras ocasiões, mas os encontros acabaram cancelados.

Fotos: Reprodução X
Fotos: Reprodução X

Divergências sobre territórios e garantias de segurança

Apesar das declarações favoráveis à retomada do diálogo, permanecem diferenças significativas entre as posições dos dois países. As exigências russas incluem a transferência de toda a região de Donbas, no leste da Ucrânia, para Moscou, a redução substancial das Forças Armadas ucranianas e o compromisso de Kiev de não ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

O governo ucraniano rejeita a cessão de territórios que ainda controla e exige garantias de segurança que impeçam uma nova invasão russa. Zelensky reiterou que aceitaria um cessar-fogo com o congelamento das posições militares ao longo da atual linha de frente, deixando a discussão sobre o futuro dos territórios para uma etapa posterior.

Essa proposta, segundo o presidente, permitiria interromper os combates e abrir caminho para a obtenção de garantias efetivas dos aliados. Zelensky também defendeu a participação de Trump e Putin em uma reunião com ele próprio e afirmou que o processo seria melhor com a presença dos europeus.

O Kremlin, no entanto, avaliou com reservas as conversas realizadas por Witkoff com os ucranianos. Ushakov afirmou que as novas propostas apresentadas pelo enviado americano incorporavam mudanças nas posições de Kiev e dos governos europeus, mas considerou que elas ainda tinham pouco conteúdo concreto para solucionar a crise.

Na terça-feira (20/10), o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, também adotou um tom cauteloso. Ele declarou que Moscou analisaria as propostas americanas, mas não faria concessões políticas, acrescentando que não esperava um “milagre” nas relações com Washington.

Uma autoridade europeia que acompanhou as discussões na Noruega avaliou que o principal obstáculo não é apenas a elaboração de um plano de paz, mas conseguir que a Rússia aceite negociar seriamente com base nele.

Relação entre Trump e Zelensky enfrenta desgaste

As negociações ocorrem em meio ao aumento das tensões entre Washington e Kiev. Trump anunciou medidas para suspender novas sanções contra Moscou e um acordo envolvendo a compra de diesel russo pelos Estados Unidos, com a expectativa de reduzir os preços dos combustíveis antes das eleições legislativas de meio de mandato, em novembro.

Durante o encontro com Witkoff, Putin informou que um navio transportando 40 mil toneladas de diesel russo deverá partir para os Estados Unidos nos próximos dias. O enviado presidencial russo Kirill Dmitriev afirmou que a cooperação econômica entre os dois países deverá continuar, apesar das críticas europeias.

A aproximação econômica contrasta com as dificuldades enfrentadas pela Ucrânia no campo militar e diplomático. O governo de Kiev acusa os Estados Unidos de restringir o apoio militar e de inteligência necessário para enfrentar as forças russas. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, rejeitou as acusações e as classificou como “escandalosas”.

A discussão também envolve o acesso ucraniano ao sistema de internet via satélite Starlink, da empresa SpaceX. O jornal The Wall Street Journal publicou que a decisão de restringir o acesso teria partido de Elon Musk, proprietário da companhia, a mando da Casa Branca.

Trump também pediu que a Ucrânia interrompesse os ataques a refinarias russas durante uma tentativa de trégua energética, que acabou não sendo respeitada pelos dois lados. Na segunda-feira (19/10), o presidente americano ainda sugeriu que os ucranianos escolhessem outro líder, argumentando que Zelensky não conseguia fechar um acordo de paz.

Libertação de cidadão americano e outros temas

A reunião em São Petersburgo também resultou no anúncio da libertação de Stephen Hubbard, professor americano aposentado de 74 anos que estava preso na Rússia desde 2022, acusado de lutar ao lado das forças ucranianas. A soltura ocorreu após um pedido feito por Trump a Putin durante uma conversa telefônica na semana anterior.

Witkoff elogiou Putin por conceder o perdão a Hubbard, chamando-o de “humanitário”. A declaração foi amplamente criticada diante da continuidade dos ataques russos contra a Ucrânia.

Além da guerra, Putin, Witkoff e seus tradutores discutiram possíveis iniciativas de cooperação econômica, incluindo exportações russas de fertilizantes para os Estados Unidos, e a disposição de Moscou para ajudar a resolver o conflito no Irã. Kushner participou do processo diplomático remotamente, pois estava gripado.

Embora os contatos entre os governos indiquem uma tentativa de reabrir as negociações, os bombardeios contra Kiev e a manutenção das exigências territoriais russas evidenciam a distância entre as partes. Até o momento, não há indicação concreta de que Moscou tenha abandonado suas principais condições para um eventual acordo.

Foto do Jornalista

Rayza Espírito Santo

Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.

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