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Polícia Federal investiga Banco de Edir Macedo por suposta fraude contábil e bloqueia até R$ 670 milhões

Relatórios do Banco Central apontam indícios de ocultação da situação financeira da instituição controlada por líder religioso; executivos tiveram sigilos quebrados e são alvo de buscas.

Atualizado há 1 horas

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (23/06) a Operação Miragem para investigar suspeitas de fraudes financeiras, manipulação de balanços e ocultação da real situação patrimonial do Banco Digimais, instituição controlada pelo empresário e líder religioso Edir Macedo. A ação teve como base relatórios do Banco Central (BC) e resultou no cumprimento de mandados de busca e apreensão, quebra de sigilos bancários e fiscais e bloqueio de até R$ 670,3 milhões em bens e valores dos investigados.

Segundo a PF, há indícios de que dirigentes da instituição utilizaram fundos de investimento e operações contábeis para apresentar ao mercado e aos órgãos reguladores uma situação financeira mais favorável do que a existente na prática. As investigações apontam para a possível manipulação de demonstrativos financeiros e registros regulatórios com o objetivo de ocultar dificuldades econômicas e manter a aparência de solvência do banco.

De acordo com as apurações, um dos principais focos da investigação envolve a valorização de créditos judiciais adquiridos por cerca de R$ 71 milhões e posteriormente registrados por mais de R$ 741 milhões nos balanços da instituição após sucessivas reavaliações realizadas por fundos ligados à estrutura do Digimais. Para os investigadores, a operação teria criado artificialmente patrimônio e receitas contábeis.

O Banco Central identificou ainda que esses ativos foram posteriormente vendidos à própria controladora do banco por mais de R$ 741 milhões, em uma negociação cujo pagamento estaria previsto apenas para 2032, sem entrada imediata de recursos no caixa da instituição. Na avaliação dos órgãos de fiscalização, a operação permitiu manter nos balanços valores que deveriam ter sido revertidos após determinação do regulador.

Na prática, a suspeita é de que o banco tenha criado um crédito a receber junto à sua controladora e registrado esse valor como ativo patrimonial, preservando indicadores financeiros sem que houvesse efetiva movimentação de recursos. A Polícia Federal sustenta que a estrutura pode configurar uma operação de crédito irregular entre partes relacionadas, prática vedada pela legislação do Sistema Financeiro Nacional.

Comparação com o Banco Master

Um dos pontos destacados na investigação é a comparação feita pela PF entre o Digimais e o Banco Master. Segundo informações obtidas pelos investigadores, as duas instituições teriam adotado estratégias semelhantes para sustentar artificialmente seus balanços.

A avaliação da polícia é que ambos os bancos utilizaram ativos considerados de rentabilidade incompatível com os padrões de mercado para inflar patrimônio e captar recursos de investidores. No caso do Digimais, a suspeita é de que a instituição tenha assumido riscos elevados enquanto transmitia ao mercado a percepção de segurança associada à proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

O Banco Master também aparece diretamente nas investigações. Após a liquidação da instituição, foi identificada uma exposição aproximada de R$ 600 milhões do Digimais a carteiras de crédito vinculadas ao banco. Esses ativos passaram a ser questionados quanto à qualidade, ao lastro e à regularidade documental.

As apurações também mencionam uma tentativa frustrada de aquisição do Digimais, em 2025, por um grupo liderado pelo executivo Maurício Quadrado, que teve passagem pelo Banco Master. A operação acabou sendo vetada pelo Banco Central.

Papel do Fundo Garantidor de Crédito

Outro aspecto investigado envolve o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), entidade privada responsável por proteger depósitos bancários em casos de insolvência de instituições financeiras.

Segundo a PF, uma eventual venda do Digimais ao BTG Pactual dependeria de uma injeção estimada em R$ 7 bilhões pelo FGC para cobrir déficits da instituição. Para os investigadores, isso poderia transferir ao sistema de proteção financeira prejuízos decorrentes da gestão do banco, enquanto controladores e administradores preservariam seus patrimônios.

A Polícia Federal argumenta que tal cenário desvirtuaria a finalidade do fundo, criado para proteger correntistas e investidores, e não para absorver perdas decorrentes de eventuais práticas ilícitas.

Quem são os investigados

Entre os alvos das medidas cautelares autorizadas pela Justiça Federal estão executivos que ocupam cargos estratégicos no Digimais e responsáveis por empresas ligadas à estrutura financeira investigada.

Foram alvo de buscas e quebras de sigilo Marcelo de Lima Brasil, João Alves de Campos, Rodrigo Ruggero, João Luiz Urbaneja e Thiago Rodrigues Urbaneja, dirigentes do banco. Também figuram na investigação José Roberto Giancoli Filho e Rodrigo Balassiano, ligados à ID Corretora de Títulos e Valores Mobiliários, responsável pela gestão de fundos relacionados à instituição.

Além das pessoas físicas, tiveram medidas cautelares decretadas o Banco Digimais S.A. e a ID Corretora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.

Edir Macedo não foi alvo de mandado de busca e apreensão por residir no exterior, mas teve a quebra de sigilo autorizada e está entre os investigados em razão de sua condição de controlador da instituição. A decisão judicial também autorizou o bloqueio e o sequestro de bens do empresário e dos demais investigados.

Histórico e sinais de deterioração

Fundado em 1981 como Banco Renner, em Porto Alegre, o Digimais passou a atuar como banco digital após uma reestruturação em 2020, quando Edir Macedo assumiu o controle integral da instituição e promoveu a mudança de nome.

Nos anos seguintes, o banco registrou deterioração financeira. Em 2022, apresentou prejuízo de aproximadamente R$ 740 milhões. Mais recentemente, relatórios da agência de classificação de risco Moody’s Local Brasil apontaram aumento da exposição a fundos alternativos, deterioração da qualidade dos ativos e necessidade de aportes dos controladores para recomposição dos índices de capital exigidos pelo Banco Central.

A agência rebaixou a classificação de risco da instituição em abril de 2026 e destacou que investimentos em fundos alternativos chegaram a representar 42,6% dos ativos totais do banco ao final de 2025.

Além disso, disputas judiciais envolvendo carteiras de crédito e questionamentos sobre a qualidade de ativos negociados pelo banco já vinham chamando a atenção do mercado financeiro antes da operação policial.

Expansão no crédito consignado

Documentos corporativos indicam que o Digimais ampliou significativamente sua atuação no mercado de crédito consignado para servidores públicos, especialmente no estado de São Paulo.

Segundo informações da própria instituição, a Prefeitura de São Paulo representava cerca de 60% da carteira de convênios do banco, enquanto o Governo do Estado concentrava aproximadamente 25% das operações. O banco também mantinha credenciamentos em municípios paulistas como Guarulhos, Ubatuba, São Sebastião, Praia Grande, Pindamonhangaba, Tupã e Tambaú.

Em nota, o Governo de São Paulo informou que o credenciamento do Digimais ocorreu dentro das regras vigentes e que a instituição atendia às exigências regulatórias na época da habilitação. O Executivo estadual afirmou ainda que o banco responde por cerca de 1,57% das operações consignadas realizadas mensalmente pelo Estado.

A Prefeitura de São Paulo declarou que o Digimais integra o grupo de 57 instituições autorizadas a operar consignações para servidores municipais e que sua participação representa menos de 3% das operações em folha.

O que diz o banco

Em nota, o Banco Digimais afirmou que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar com as apurações em andamento.

"A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes", informou o banco.

A Bless Capital, citada em documentos relacionados à investigação, declarou que não foi alvo da Operação Miragem nem de qualquer medida judicial. A empresa afirmou ainda que não possui vínculo societário com a ID Corretora e negou irregularidades na gestão dos fundos sob sua administração.

Os materiais apreendidos serão analisados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal. As investigações prosseguem para apurar a eventual responsabilidade dos envolvidos pelos crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas pela legislação do Sistema Financeiro Nacional.

Foto do Jornalista

Rayza Espírito Santo

Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.

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