Foto/Agência Brasil
Tragédia em Juiz de Fora: O preço da negligência climática e urbana
Especialistas apontam que aquecimento global, corte de verbas e segregação habitacional potencializaram o desastre em Minas
Atualizado há 28 dias
O desastre que devastou a Zona da Mata mineira nesta semana, deixando um rastro de mortos e milhares de desabrigados, é visto por especialistas como um "anúncio do futuro" negligenciado pelo Poder Público. Em entrevista, geógrafos, meteorologistas e engenheiros foram unânimes: o evento extremo em Juiz de Fora é o resultado direto do aquecimento global somado a falhas estruturais de gestão.
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O Fator Climático: O Atlântico "Fervendo"
O coordenador do Cemaden, Marcelo Seluchi, trouxe um dado alarmante: a temperatura da água na costa brasileira está 3°C acima do normal.
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Evaporação: O mar mais quente gera muito mais umidade.
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Barreira Geográfica: Essa umidade viaja do oceano e "bate" nas montanhas de Juiz de Fora, descarregando volumes de chuva que a infraestrutura urbana não consegue suportar.
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O Veredito: Para Seluchi, os eventos extremos são o preço de decisões tomadas no passado e do descumprimento de acordos climáticos.
O Fator Político: O Corte de 95% nas Verbas
O geógrafo Miguel Felippe (UFJF) destacou que a resiliência das cidades esbarra no financiamento. Dados do Portal da Transparência indicam uma queda drástica nos recursos para a Defesa Civil de Minas Gerais sob a gestão de Romeu Zema:
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2023: R$ 135 milhões.
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2025: Apenas R$ 6 milhões. Essa redução asfixia ações de mitigação e planos de contingência, deixando as prefeituras sem suporte estadual para obras de contenção.
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O Fator Urbano: O Capital Imobiliário e a Exclusão
A análise social do desastre mostra que as vítimas têm CEP e classe social definidos.
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Segregação: O mercado imobiliário valoriza áreas seguras, empurrando as populações mais pobres para as encostas e várzeas de rios — áreas com suscetibilidade natural a desastres.
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Impermeabilização: Em áreas florestadas, o solo retém 90% da chuva. Em Juiz de Fora, a urbanização inverteu essa lógica: 90% da água escoa sobre o asfalto, gerando enxurradas fatais.
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Soluções de Engenharia e Resiliência
O professor Matheus Martins (UFRJ) sugere que a cidade precisa aprender a "conviver com a água":
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Pôlderes: Sistema holandês de muros e bombas para isolar áreas inundáveis (como o Vale do Rio Paraibuna).
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Parques Inundáveis: Áreas verdes que funcionam como "esponjas" urbanas.
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Educação para Fuga: Inspirar-se no modelo japonês, onde a população sabe exatamente qual rota seguir ao ouvir a sirene, sem depender de remoção individual.

Marcus Pires
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