Menu

Imagem da notícia Foto/Agência Brasil

Tragédia em Juiz de Fora: O preço da negligência climática e urbana

Especialistas apontam que aquecimento global, corte de verbas e segregação habitacional potencializaram o desastre em Minas

Atualizado há 28 dias

O desastre que devastou a Zona da Mata mineira nesta semana, deixando um rastro de mortos e milhares de desabrigados, é visto por especialistas como um "anúncio do futuro" negligenciado pelo Poder Público. Em entrevista, geógrafos, meteorologistas e engenheiros foram unânimes: o evento extremo em Juiz de Fora é o resultado direto do aquecimento global somado a falhas estruturais de gestão.

Juiz de Fora (MG), 25/02/2026 – Casas são destruídas após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

 

O Fator Climático: O Atlântico "Fervendo"

O coordenador do Cemaden, Marcelo Seluchi, trouxe um dado alarmante: a temperatura da água na costa brasileira está 3°C acima do normal.

  • Evaporação: O mar mais quente gera muito mais umidade.

  • Barreira Geográfica: Essa umidade viaja do oceano e "bate" nas montanhas de Juiz de Fora, descarregando volumes de chuva que a infraestrutura urbana não consegue suportar.

  • O Veredito: Para Seluchi, os eventos extremos são o preço de decisões tomadas no passado e do descumprimento de acordos climáticos.

    O Fator Político: O Corte de 95% nas Verbas

    O geógrafo Miguel Felippe (UFJF) destacou que a resiliência das cidades esbarra no financiamento. Dados do Portal da Transparência indicam uma queda drástica nos recursos para a Defesa Civil de Minas Gerais sob a gestão de Romeu Zema:

    • 2023: R$ 135 milhões.

    • 2025: Apenas R$ 6 milhões. Essa redução asfixia ações de mitigação e planos de contingência, deixando as prefeituras sem suporte estadual para obras de contenção.

Juiz de Fora (MG), 25/02/2026 – Bombeiros retiram corpo de escombros após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

 

    O Fator Urbano: O Capital Imobiliário e a Exclusão

A análise social do desastre mostra que as vítimas têm CEP e classe social definidos.

  • Segregação: O mercado imobiliário valoriza áreas seguras, empurrando as populações mais pobres para as encostas e várzeas de rios — áreas com suscetibilidade natural a desastres.

  • Impermeabilização: Em áreas florestadas, o solo retém 90% da chuva. Em Juiz de Fora, a urbanização inverteu essa lógica: 90% da água escoa sobre o asfalto, gerando enxurradas fatais.

 

Juiz de Fora (MG), 25/02/2026 – Moradores retiram móveis de suas casas  após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

 

Soluções de Engenharia e Resiliência

O professor Matheus Martins (UFRJ) sugere que a cidade precisa aprender a "conviver com a água":

  1. Pôlderes: Sistema holandês de muros e bombas para isolar áreas inundáveis (como o Vale do Rio Paraibuna).

  2. Parques Inundáveis: Áreas verdes que funcionam como "esponjas" urbanas.

  3. Educação para Fuga: Inspirar-se no modelo japonês, onde a população sabe exatamente qual rota seguir ao ouvir a sirene, sem depender de remoção individual.

Foto do Jornalista

Marcus Pires

Comentários (0)

Veja também

Mais

lidas
  1. 1
    Carro usado no sequestro de jovem em Itaipu é encontrado carbonizado em
  2. 2
    Corpo de idoso desaparecido em Maricá é encontrado na Estrada da Restinga
  3. 3
    Denúncia expõe trama política e familiar contra Paulo Melo
  4. 4
    Homem é preso após agredir idosa para roubar cerveja em Nova Iguaçu
  5. 5
    Homem é encontrado morto com marcas de tiros na restinga de Maricá
Mais do Gazeta