Fertilizantes sendo descarregados/Foto: Cláudio Neves
Crise no Estreito de Ormuz encarece fertilizantes e pressiona o agro brasileiro
Interrupção do tráfego no Golfo eleva preços em até 30%, encarece produção agrícola e projeta impacto nos alimentos nos próximos meses.
Atualizado há 5 horas
O fechamento do Estreito de Ormuz, em meio ao conflito no Oriente Médio, desencadeou uma crise no comércio global de fertilizantes com efeitos imediatos no Brasil. Dependente de importações, incluindo volumes relevantes vindos do Irã, o país já enfrenta aumento de preços entre 20% e 30%, além de dificuldades logísticas que pressionam o custo de produção agrícola.
Responsável por cerca de um terço do comércio mundial de fertilizantes, a rota marítima teve queda superior a 90% no tráfego de navios-tanque. O bloqueio retirou do mercado cerca de 800 mil toneladas mensais de insumos segundo o centro de conhecimento e inteligência de mercado agrícola RaboResearch, provocando um choque de oferta em plena preparação para o ciclo de plantio em diversas regiões do mundo.
No Brasil, o impacto é potencializado pela dependência externa. Enquanto outros países reduziram impostos de importação para conter a escalada de preços, o governo brasileiro adotou medidas mais restritas, como cortes no diesel e em tributos como PIS e Cofins. No campo, produtores já enfrentam um dilema direto: reduzir o uso de fertilizantes ou absorver custos mais altos.
Além da escassez, o custo logístico disparou. Dados do jornal de negócios Lloyd’s List mostram que o seguro contra riscos de guerra para navios na região subiu dez vezes após o início do conflito. Uma embarcação avaliada em US$ 120 milhões, que pagava cerca de US$ 48 mil pela cobertura, agora enfrenta custos de até US$ 1,2 milhão por travessia. O resultado são atrasos nas entregas e encarecimento adicional dos insumos.
Especialistas alertam que os efeitos mais severos ainda estão por vir. Como os fertilizantes são essenciais para a produtividade agrícola, o impacto tende a aparecer entre seis e nove meses depois, no período de colheita. “Esse gargalo logístico não tem solução viável no curto prazo”, afirmou o economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Maximo Torero, ao destacar que decisões de plantio já estão sendo alteradas em vários países.
O cenário reacende memórias recentes. Em 2022, a guerra na Ucrânia retirou cerca de 15% da oferta global de fertilizantes e levou os preços dos alimentos a níveis recordes. Agora, o bloqueio em Ormuz ocorre em um momento crítico do calendário agrícola do Hemisfério Norte, sem estoques estratégicos suficientes ou alternativas rápidas de abastecimento.
Organismos internacionais apontam para uma escalada mais ampla. Em declaração conjunta, Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e Programa Mundial de Alimentos afirmaram que o conflito já provoca uma das maiores perturbações nos mercados de energia da história recente, com impacto direto sobre fertilizantes e alimentos. A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, afirmou que “todos os caminhos agora levam a preços mais altos”.
Enquanto isso, grandes economias agrícolas adotam estratégias emergenciais. A Índia, altamente dependente de importações, diversificou fornecedores, ampliou a produção interna e elevou estoques a níveis recordes, o que deve mitigar efeitos na safra de 2026. Já a Turquia reduziu tarifas e registrou disparada na demanda interna por fertilizantes.
Em regiões mais vulneráveis, o impacto tende a ser mais severo. Na África, especialistas projetam perdas de produtividade entre 40% e 50% em culturas como o milho, devido à redução no uso de insumos. O aumento dos custos de transporte e a dependência de importações de alimentos agravam o risco de insegurança alimentar.
O choque também se espalha por cadeias relacionadas. A interrupção do fluxo de gás natural liquefeito do Catar afeta a produção de fertilizantes nitrogenados no sul da Ásia. No Golfo, embarques de amônia, ureia e fosfatos estão comprometidos, enquanto restrições de exportação impostas por países como Rússia, Turquia e China reduzem ainda mais a oferta global.
Para analistas, a combinação de escassez, custos elevados e incerteza logística cria um ambiente de pressão prolongada. “O prazo para entrega é curto e a demanda segue alta, o que sustenta os preços”, avalia Bruno Fonseca, do RaboResearch.
A FAO alerta que o tempo é um fator crítico. Caso o fluxo marítimo não seja normalizado rapidamente, o cenário pode evoluir para uma crise alimentar global comparável à observada durante a pandemia. No Brasil, os reflexos devem se intensificar ao longo do ano, com impacto direto no custo dos alimentos e na inflação.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
Veja também
Mais
lidas- 1
Morte de mulher após parto gera investigação em São Gonçalo

- 2
Embarcação inédita transforma água em energia no Brasil

- 3
Guerra no Oriente Médio: EUA apontam envio secreto de armas chinesas ao Irã

- 4
Elenco apresenta espetáculo “Jesus de Nazaré em Maricá”

- 5
Evento em Maricá celebra cultura afro-brasileira e tradições

Comentários (0)