Foto: Sergey Bobylev
Rússia e China ampliam parceria estratégica em encontro de líderes
Presidentes criticam política externa dos EUA, defendem reforma da governança global e ampliam acordos bilaterais.
Atualizado há 8 horas
Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, reforçaram nesta quarta-feira (20/05) a aliança estratégica entre Moscou e Pequim durante encontro oficial realizado no Grande Salão do Povo, na capital chinesa. A reunião terminou com a assinatura de duas declarações conjuntas entre os chefes de Estado e dezenas de acordos nas áreas de energia, comércio, tecnologia, educação e cooperação internacional.
A principal declaração assinada pelos líderes possui 9.935 palavras e trata de temas que vão desde segurança nuclear, Taiwan e estabilidade geopolítica até cooperação ambiental envolvendo espécies como pandas-gigantes, tigres-de-amur e macacos-nariz-arrebitado-dourados. Outra declaração conjunta, mais curta, defende a construção de uma ordem mundial multipolar e um novo modelo de relações internacionais menos dependente da influência dos Estados Unidos.
Ao todo, foram assinados 20 acordos intergovernamentais e interdepartamentais durante a cerimônia oficial e outros 20 documentos paralelos ao longo da visita, totalizando 42 atos diplomáticos e comerciais.
Durante a coletiva de imprensa, Xi afirmou que China e Rússia devem atuar contra “todos os atos que neguem as conquistas da vitória na Segunda Guerra Mundial” e condenou tentativas de “reabilitar o fascismo e o militarismo”. O líder chinês também criticou o unilateralismo e o hegemonismo internacional, defendendo maior protagonismo conjunto dos dois países dentro do Conselho de Segurança da ONU.
“Como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, China e Rússia devem cumprir firmemente suas responsabilidades como grandes potências, defender a autoridade das Nações Unidas e a justiça e equidade internacionais”, declarou Xi.
Putin classificou a parceria bilateral como um fator de estabilidade global em meio ao atual cenário internacional. “Na situação tensa do mundo atual, nossa cooperação estreita é particularmente necessária”, afirmou o presidente russo ao chamar Xi de “meu caro amigo” durante a cerimônia de recepção.
A visita acontece menos de uma semana após Xi Jinping receber o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Pequim. Segundo autoridades russas, os dois líderes discutiram a guerra no Oriente Médio, o conflito na Ucrânia, cooperação energética, comércio bilateral e mecanismos para reduzir a dependência global da influência americana.
Os dois governos também criticaram os planos norte-americanos para o escudo antimíssil “Domo Dourado”, alegando que o projeto ameaça a estabilidade estratégica internacional. Moscou e Pequim ainda acusaram Washington de agir de forma irresponsável ao não avançar em um novo tratado nuclear para substituir acordos históricos expirados.
A cooperação energética permaneceu no centro das negociações. O Kremlin informou que houve entendimento geral com Pequim sobre o projeto do gasoduto Força da Sibéria 2, embora detalhes como preços, financiamento e cronograma ainda estejam em discussão. O projeto prevê o transporte de gás natural russo da Sibéria para a China por meio da Mongólia.
Antes da viagem, Putin afirmou que a Rússia está preparada para garantir fornecimento “ininterrupto” de petróleo, gás e carvão ao mercado chinês. Xi, por sua vez, defendeu aprofundar a cooperação em comércio, investimentos, recursos energéticos, transporte e inovação tecnológica.
O presidente chinês destacou que o comércio bilateral ultrapassou a marca de US$ 200 bilhões por três anos consecutivos e registrou crescimento próximo de 20% nos quatro primeiros meses de 2026.
Na área tecnológica, a Rússia busca ampliar o acesso a componentes chineses diante das restrições impostas por sanções ocidentais. O CEO do Sberbank, German Gref, afirmou que Moscou pretende utilizar chips fabricados na China para alimentar o sistema de inteligência artificial russo GigaChat.
Xi também anunciou o “Ano da Educação China-Rússia”, previsto para 2026 e 2027, com foco na ampliação de intercâmbios estudantis, cooperação universitária e pesquisa científica conjunta.
O encontro desta quarta marca dois marcos diplomáticos entre os países: os 25 anos da assinatura do Tratado de Boa Vizinhança e os 30 anos do estabelecimento formal da parceria estratégica sino-russa. Esta foi a 25ª visita de Putin à China e, segundo os governos, os dois líderes já se reuniram mais de 40 vezes ao longo das últimas décadas.
Na diplomacia chinesa, a relação com Moscou ocupa o mais alto nível entre as grandes potências. A parceria é oficialmente classificada como “Parceria de Coordenação Estratégica Integral para uma Nova Era”, conceito utilizado por Pequim para definir alinhamento aprofundado em áreas como política, segurança, economia, tecnologia e atuação conjunta em organismos multilaterais.
Xi afirmou ainda que os dois países devem ampliar a coordenação em fóruns como ONU, Brics, Organização para Cooperação de Xangai e Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), além de trabalhar por reformas na governança global.
A aproximação entre China e Rússia ganhou força desde fevereiro de 2022, quando os dois países anunciaram uma parceria “sem limites” semanas antes da invasão russa da Ucrânia. Embora Pequim declare neutralidade no conflito, a China ampliou significativamente o comércio bilateral com Moscou e manteve exercícios militares conjuntos com as forças russas.
Analistas políticos interpretam a recepção oferecida por Xi Jinping a Vladimir Putin poucos dias após a visita do presidente norte-americano Donald Trump, sob condições semelhantes e com o mesmo nível de honrarias diplomáticas, como um gesto simbólico de equilíbrio geopolítico por parte da China. A estratégia é vista como um movimento de Pequim para ampliar sua atuação internacional em um momento marcado pelo debate sobre multilateralismo, reorganização das alianças globais e disputa por influência econômica e política.
Nesse cenário, a China tem intensificado negociações e acordos com diferentes países e blocos, fortalecendo sua presença em organismos multilaterais e consolidando espaço como uma das principais lideranças globais. Para especialistas, Pequim busca ampliar sua influência sem romper completamente com os principais centros econômicos internacionais, mantendo diálogo simultâneo com potências rivais.
O contexto também evidencia um contraponto entre os modelos representados pelas duas maiores potências da atualidade. De um lado, os Estados Unidos seguem como principal símbolo do capitalismo contemporâneo e da ordem liberal liderada pelo Ocidente. Do outro, a China amplia seu protagonismo internacional mantendo a estrutura política socialista sob comando do Partido Comunista Chinês, enquanto expande sua presença econômica e tecnológica em escala global.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
Veja também
Mais
lidas- 1
Comissão da Câmara busca consenso para fim da escala 6x1

- 2
China e Estados Unidos ampliam diálogo sob pressão geopolítica

- 3
Brasil define convocados para a Copa do Mundo de 2026

- 4
Prefeito de Maricá busca atrair data center do banco BTG Pactual

- 5
Eleições: Flávio Bolsonaro questiona pesquisa após avanço de Lula

Comentários (0)