Planta de processamento da mineradora Serra Verde/Foto: Divulgação
Exploração de terras raras no Brasil entra na mira geopolítica global
Gigante americana compra mina estratégica no Brasil por US$ 2,8 bilhões.
Atualizado há 5 horas
A USA Rare Earth (USAR), empresa listada na Nasdaq, anunciou na segunda-feira (20/04) a aquisição da mineradora brasileira Serra Verde, responsável pela única mina de terras raras em operação no país. Avaliada em US$ 2,8 bilhões, a transação depende de aprovações regulatórias e tem conclusão prevista até o fim do terceiro trimestre deste ano.
O acordo foi estruturado em duas etapas: pagamento imediato de US$ 300 milhões e a emissão de 126,8 milhões de novas ações da compradora aos atuais acionistas da Serra Verde. Com a incorporação, a companhia americana passa a ter sua primeira mina em funcionamento e consolida um modelo de integração vertical, abrangendo desde a extração até a fabricação de ímãs de alto desempenho.
Localizada em Minaçu, no norte de Goiás, a mina de Pela Ema é considerada um ativo estratégico por ser o único depósito de argila iônica em produção fora da Ásia. A expectativa da USAR é que a operação responda, até 2027, por mais da metade da oferta global de terras raras pesadas produzida fora da China.
Em atividade comercial desde 2024, após mais de US$ 1,1 bilhão investidos ao longo de uma década, a mina tem atualmente toda a produção destinada ao mercado chinês. O cenário reflete a concentração do setor: a China responde por mais de 50% da extração global e domina quase integralmente as etapas de processamento e refino desses minerais.
A aquisição ocorre em meio à intensificação da disputa entre Estados Unidos e China pelo controle de cadeias de suprimento consideradas estratégicas. As terras raras são insumos essenciais para tecnologias como veículos elétricos, turbinas eólicas, drones, semicondutores e equipamentos militares. Entre os elementos produzidos pela Serra Verde estão disprósio, térbio e ítrio, fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes.
Com o negócio, a USAR garante acesso a um dos depósitos mais completos fora do continente asiático, capaz de fornecer os quatro principais elementos magnéticos em escala industrial. “A mina Pela Ema é um ativo único e o único produtor fora da Ásia capaz de fornecer os quatro elementos de terras raras magnéticos em grande escala”, afirmou a CEO da companhia, Barbara Humpton.
Além da aquisição, a Serra Verde firmou um contrato de fornecimento de 15 anos com uma empresa de propósito específico financiada por agências do governo norte-americano e investidores privados. O acordo prevê a compra de 100% da produção inicial da mina, com preços mínimos garantidos, mecanismo apontado pela empresa como forma de assegurar estabilidade financeira e previsibilidade de receitas.
O financiamento para expansão da operação já havia sido reforçado em fevereiro, quando a Development Finance Corporation (DFC), agência de crédito dos Estados Unidos, elevou seu aporte para US$ 565 milhões, com possibilidade de conversão em participação acionária.
A transação se insere em um movimento mais amplo de reorganização do setor. Em janeiro, a Energy Fuels anunciou proposta para adquirir a australiana Strategic Materials por US$ 299 milhões. Já em abril, a própria USAR comprou 12,5% da francesa Carester, especializada em processamento de terras raras.
Internamente, o negócio ampliou o debate sobre soberania e controle de recursos estratégicos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a negociação e questionou a atuação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado. “Se a gente não tomar cuidado, essa gente vai vender o Brasil, e nós não podemos permitir”, afirmou em publicação nas redes sociais, classificando o acordo como “uma vergonha”.
Especialistas também apontam preocupações. Luiz Paulo Siqueira, do Movimento pela Soberania Popular da Mineração (MAM), avalia que o interesse internacional nas terras raras tem forte componente geopolítico. “O que está em jogo é como se amplia o poder direto do governo norte-americano no controle das jazidas em território nacional”, disse.
Ele destaca ainda a ausência de legislação específica para o setor no Brasil, atualmente regulado pelas mesmas normas aplicáveis à mineração em geral. Segundo Siqueira, o Ministério de Minas e Energia discute a criação de regras próprias, enquanto projetos em tramitação no Congresso podem flexibilizar licenciamento ambiental e prever incentivos fiscais para empresas do segmento.
Apesar das críticas, a Serra Verde afirma que a operação permitirá a formação de uma das principais companhias globais do setor, com presença no Brasil, Estados Unidos, França e Reino Unido. Em comunicado, a empresa destacou que a combinação de ativos viabiliza a criação de uma cadeia completa de suprimento fora da Ásia, da mina à produção de ímãs.
Com a conclusão do negócio, o atual presidente do conselho da Serra Verde, Mick Davis, passará a integrar o conselho da USAR, enquanto o CEO da mineradora brasileira, Thras Moraitis, assumirá a presidência da companhia americana. Em teleconferência com investidores, Moraitis afirmou que a expansão da oferta é necessária para atender à demanda crescente por tecnologias avançadas.
O avanço de empresas e governos sobre esse mercado coloca o Brasil no centro de uma disputa global por minerais críticos, ao mesmo tempo em que expõe desafios regulatórios e pressões sobre o controle de recursos considerados estratégicos para o futuro da economia e da segurança internacional.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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