Foto: Juca Varella
Polícia alerta para grupos que aliciam menores no Discord
Investigação identifica mais de 600 vítimas; maioria é adolescente e do sexo feminino.
Atualizado há 42 dias
Crianças e adolescentes em busca de aceitação e pertencimento têm sido atraídos para grupos conhecidos como “panelas” no Discord, plataforma que permite a criação de servidores para interação entre usuários. Segundo a Polícia Civil de São Paulo, nesses ambientes ocorrem práticas criminosas transmitidas ao vivo para milhares de participantes.
De acordo com a delegada Lisandréa Salvariego, coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), os servidores são organizados por adolescentes e jovens adultos, que se autodenominam “paneleiros”. “Há uma estrutura hierárquica, com administradores, moderadores e usuários. Para subir de nível, os participantes precisam cumprir desafios”, explica.
Entre as práticas investigadas estão humilhações públicas, ameaças, coação para envio de imagens íntimas, automutilação incentivada e outras situações de exposição constrangedora. Em alguns casos, também há estímulo a maus-tratos contra animais. A maior parte das vítimas é composta por meninas adolescentes, alvo de crimes contra a dignidade sexual.
Segundo a delegada, os grupos chegam a reunir três ou quatro mil pessoas. A investigação já identificou mais de 600 vítimas em todo o país. Em algumas situações, quem entra como vítima pode, posteriormente, passar a reproduzir as condutas dentro do grupo.
A polícia aponta que plataformas de jogos como Roblox e Minecraft têm sido usadas para atrair menores às “panelas”. Por meio de jogos criados com esse objetivo, suspeitos utilizam técnicas de manipulação e persuasão para ganhar a confiança das vítimas.
O contato costuma começar com elogios e conversas amistosas. Após conquistar a confiança, os autores passam a exigir conteúdos íntimos e, em seguida, utilizam ameaças para forçar novas exposições ou a realização de desafios degradantes. Informações pessoais obtidas em redes sociais são usadas como forma de intimidação.
A delegada ressalta que, apesar da sensação de anonimato, a internet deixa rastros. “Está mais fácil cometer crimes virtuais, mas também está mais fácil identificar onde eles ocorrem”, afirma. Um dos investigados apontados como financiador de ataques no Brasil foi localizado e detido na França. Operações recentes ocorreram em oito estados e também no exterior.
O Noad atua com infiltração digital para monitorar e reunir provas. Segundo a delegada, em situações emergenciais é necessário que as plataformas respondam rapidamente às solicitações policiais para evitar danos imediatos às vítimas. Ela defende a padronização de canais de atendimento urgente e maior agilidade no fornecimento de dados.
Em nota, o Discord informou que “violência e atividades ilegais não têm lugar na plataforma ou na sociedade”. A empresa afirma que investe em equipes especializadas, ferramentas de segurança e sistemas de moderação para proteger seus mais de 200 milhões de usuários. Segundo o comunicado, conteúdos que violam as regras são removidos, usuários podem ser banidos e servidores desligados, além de haver comunicação às autoridades quando necessário. A empresa também declarou manter cooperação contínua com as autoridades brasileiras.
Para a delegada, o principal caminho de prevenção é o diálogo. “Eles precisam ter consciência de que, no ambiente digital, quem está do outro lado nem sempre é quem diz ser”, afirma.
A polícia orienta que pais e responsáveis acompanhem o comportamento dos filhos, observando sinais como isolamento repentino, mudanças de humor e consumo frequente de conteúdos violentos ou inadequados à idade. Caso haja indícios de crime, a recomendação é registrar ocorrência com o máximo de detalhes e buscar apoio psicológico, conforme avaliação da família.
“As crianças não costumam procurar os pais quando são vítimas. Muitas vezes contam primeiro a um colega. Informação e atenção podem evitar que a situação avance”, conclui a delegada.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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