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EUA autorizam venda de ouro venezuelano e retomam relações com Caracas
Licença do Tesouro permite transações com mineradora estatal venezuelana e integra estratégia de Washington para explorar petróleo e minerais do país após a derrubada de Nicolás Maduro.
Atualizado há 13 dias
O governo do presidente estadunidense Donald Trump autorizou a venda de parte do ouro venezuelano aos Estados Unidos na sexta-feira (06/03), em mais uma flexibilização das sanções impostas a Caracas após a queda do ex-presidente Nicolás Maduro em janeiro deste ano. A medida foi formalizada por meio de uma licença publicada no site do Departamento do Tesouro norte-americano.
O documento autoriza transações com a Companhia Geral de Mineração da Venezuela (Minerven) e suas filiais. Inicialmente, as operações poderão ser realizadas apenas por empresas sediadas nos Estados Unidos, que também estão autorizadas a reexportar o metal precioso para outros mercados.
A licença estabelece ainda um sistema de rastreabilidade para garantir que o ouro comercializado tenha origem comprovadamente venezuelana. O texto também proíbe que o metal seja destinado a países como Irã, Coreia do Norte, Rússia, China e Cuba, restrição semelhante à aplicada às exportações de petróleo do país sul-americano.
Assim como ocorre com o petróleo venezuelano, o dinheiro obtido com a venda do ouro deverá ser depositado em um fundo supervisionado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, atualmente sediado no Catar.
Relações diplomáticas restabelecidas
A autorização foi divulgada pouco depois de os Estados Unidos anunciarem o restabelecimento formal das relações diplomáticas com a Venezuela. Washington reconheceu o governo da presidente interina Delcy Rodríguez, que assumiu o poder após a captura de Nicolás Maduro em uma operação militar norte-americana realizada em Caracas no dia 03/01.
Durante o encontro “Escudo das Américas”, que reuniu governantes da América Latina e do Caribe em 07/03, Donald Trump afirmou que o reconhecimento diplomático marca uma nova etapa nas relações entre os dois países.
No mesmo evento, o presidente norte-americano mencionou um “acordo histórico do ouro”, voltado à cooperação bilateral para viabilizar a comercialização internacional do metal e de outros minerais venezuelanos.
Visitas e interesse empresarial
A licença do Tesouro foi tornada pública após a visita de dois dias do secretário do Interior dos Estados Unidos, Doug Burgum, à Venezuela. Durante a viagem, Burgum se reuniu com Delcy Rodríguez e afirmou que dezenas de empresas demonstraram interesse em investir no setor mineral do país.
Segundo ele, a Venezuela possui cerca de US$ 500 bilhões em reservas auríferas, além de minerais estratégicos. “O país também tem bauxita, essencial para a produção de alumínio utilizado em defesa e bens de consumo, além de recursos de carvão para geração de energia”, afirmou o secretário em entrevista após retornar a Washington.
De acordo com autoridades norte-americanas, o primeiro carregamento de ouro venezuelano autorizado pela nova licença já chegou aos Estados Unidos. Avaliada em cerca de US$ 100 milhões, a remessa será utilizada para fins industriais e comerciais.
Recursos naturais no centro da disputa
Desde a queda de Maduro, o acesso aos recursos naturais da Venezuela passou a ser um dos principais eixos da política norte-americana para o país. O petróleo foi o primeiro setor reaberto à cooperação bilateral, após mudanças na legislação venezuelana e a assinatura de contratos com empresas estrangeiras.
Agora, o mesmo modelo começa a ser aplicado ao setor mineral. O Parlamento venezuelano discute uma nova lei de mineração destinada a estabelecer regras para investimentos estrangeiros, segurança jurídica e novos mecanismos de contratação na exploração de recursos naturais.
A Venezuela possui algumas das maiores reservas de commodities do mundo. Além de deter as maiores reservas comprovadas de petróleo, o país conta com vastos depósitos de ouro, gás natural, minério de ferro, bauxita e diamantes, além de minerais raros como coltan e tório (fundamentais para a produção de eletrônicos, veículos elétricos e equipamentos militares).
Área mineradora marcada por conflitos
Grande parte desses recursos está concentrada no Arco Mineiro do Orinoco, região de cerca de 112 mil quilômetros quadrados criada por decreto em 2016 durante o governo de Nicolás Maduro. A área corresponde a quase 12% do território venezuelano.
Nos últimos anos, o local se tornou palco de mineração irregular, presença de grupos armados e redes de contrabando. Guerrilheiros colombianos, dissidentes das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e gangues como o Tren de Aragua atuam na região, segundo relatórios internacionais.
Organizações ambientais e de direitos humanos alertam para os impactos da exploração na região. Relatórios das Nações Unidas apontam violações graves, incluindo trabalho forçado, tráfico de pessoas e destruição ambiental em áreas protegidas.
A ONG SOS Orinoco criticou a autorização concedida pelos Estados Unidos para negociar ouro venezuelano, afirmando que a medida pode legitimar atividades ilegais. Em comunicado, a organização afirmou que a licença “perpetua o ecocídio e lava dinheiro proveniente de atividades criminosas”.
Apesar das críticas, o governo Trump sustenta que a abertura do setor mineral venezuelano faz parte de um processo de reorganização econômica do país após a mudança de regime. Durante o encontro regional em Washington, o presidente norte-americano declarou que os líderes presentes compartilham a convicção de que “não se pode mais tolerar ilegalidade no hemisfério”.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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