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A nova “Brasilianização”: O Shift Cultural Mundial que reacende o ‘Sonho Brasileiro’

Por Laura Mendonzza: Especialista em Relações Internacionais, formada pela Eötvös Loránd University. Residente na Hungria, escreve sobre política internacional, questões sociais e temas da atualidade.

Atualizado há 54 dias

O Brasil sempre foi considerado um país de grande potencial desperdiçado. Lembro até hoje, ainda garota, de ouvir meus professores de escola listarem nossas diversas riquezas - a infinita enumeração de minerais raros, belezas naturais, revoluções artísticas, produtos agropecuários, dimensões continentais.
“O Brasil tinha de tudo para dar certo” é uma frase que ecoa perpetuamente no vocabulário nacional.

Seja por crer que nosso desenvolvimento - ou a falta dele - foi culpa da colonização, do controle externo (imperialismo), de políticas públicas falhas, de falsos populistas, entre tantos outros fatores, o veredito comum era sempre o mesmo: falhamos, sem chance de reparação breve ou aparente.

De onde vem tal descrença no potencial brasileiro? Muito se deve à chamada “frustração coletiva” diante da promessa, repetida à exaustão, de progresso nacional.
Paulo Arantes cita em seu livro Zero à Esquerda que essa frustração tem base em um dos “mitos fundadores” do Brasil: a ideia de que estaríamos sempre na direção de um futuro marcado pelo progresso - medido, porém, por patamares eurocêntricos de desenvolvimento.

Pouco a pouco, quando essa promessa encontrou as dificuldades do subdesenvolvimento em um mundo neoliberal, o resultado foi uma catastrófica descrença e uma profunda desconexão política e social. A população brasileira e seus líderes, coletivamente, aceitaram que jamais chegaríamos a tais patamares de “civilização”.

Quando o Brasil virou metáfora do colapso social global

Essa desconexão do tecido social brasileiro foi tão profunda que se tornou base para teorias da sociologia americana e francesa. Surge então o conceito da “brasilianização do mundo”, termo utilizado para se referir a países como França, Estados Unidos e Inglaterra que, a partir do agravamento da desigualdade social, viram ruir suas sociedades nacionais coesas - muito em função do classismo exacerbado e das tensões ligadas à imigração.

O termo descreve um futuro global marcado por crescente desigualdade social, enfraquecimento do Estado de bem-estar social, corrupção e um modelo econômico com grandes disparidades entre classes. Trata-se da difusão dessas características, historicamente associadas à experiência brasileira, para outras nações, especialmente países desenvolvidos, que passaram a ver frustrado o futuro prometido pela globalização.

Mas o Brasil parece ter, no que mais se assemelha a um piscar de olhos, virado uma chave em um futuro que parecia fadado ao fracasso. Hoje, o país já não recebe a globalização como um peso, mas como ferramenta. Estamos testemunhando, em tempo real, uma revolução brasileira no cenário mundial - capaz de ressignificar completamente o conceito de “brasilianização”.

Essa “revolução” resulta da junção de fatores sociais e políticos que, cumulativamente, transformaram a imagem do Brasil no exterior. Socialmente, a cultura brasileira nunca foi tão enaltecida - e, mais do que isso, desejada.

A estética brasileira, marcada por traços nacionais muito específicos - em essência, o nosso “jeitinho brasileiro” - tornou-se popular nas redes sociais. Em um mundo obcecado pela busca da individualidade, a cultura (e a simpatia) brasileira se destacou e passou a ocupar espaço relevante nesse mercado simbólico global. O Brasil se tornou “the place to be” - o lugar para se estar.

Como reflexo direto desse movimento, vimos um crescimento exponencial no turismo brasileiro em 2025. O Brasil recebeu mais de 5,3 milhões de turistas estrangeiros no primeiro semestre do ano, um aumento de 48,2% em relação ao mesmo período do ano anterior - o melhor resultado já registrado para um primeiro semestre.

O país já alcançou 77,3% da meta de 2025, de 6,9 milhões de visitantes internacionais, estabelecida no Plano Nacional de Turismo 2024-2027, e pode superar até mesmo a meta prevista para 2027, de 8,1 milhões, ainda até o fim deste ano.

A busca pela estética brasileira não se expressa apenas na vinda de turistas, mas também no consumo de produtos nacionais. Um exemplo emblemático é a recente popularização internacional da Havaianas.

A marca, presente no cotidiano brasileiro há décadas, passou por uma reformulação estratégica e se espalhou pelo universo da moda global, realizando colaborações com grifes de luxo como Dolce & Gabbana. Tornou-se símbolo de estilo e quiet luxury (“luxo discreto”), marcando presença como peça essencial nas semanas de moda de Paris, Londres e Copenhague, além de figurar nos pés de celebridades internacionais.

Assim como a Havaianas, outra marca brasileira que vem conquistando espaço internacional é a Farm Rio, que já possui lojas espalhadas pela Europa e pelos Estados Unidos. Nos últimos balanços financeiros da Azzas - maior grupo de moda da América Latina - a Farm chamou atenção de analistas e investidores.

No terceiro trimestre do ano passado, o segmento internacional da marca (Farm Global) apresentou uma receita 34% maior na comparação anual, confirmando o apetite global pela estética brasileira.

A demanda pela estética brasileira também se manifesta no consumo de nossa arte. No cinema, tivemos produções como Ainda Estou Aqui, premiado com o Oscar de Melhor Filme Internacional e com o Globo de Ouro de Melhor Atriz para Fernanda Torres.

Em janeiro, O Agente Secreto conquistou o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, garantindo ao Brasil uma das principais estatuetas da edição de 2026. Na mesma noite, Wagner Moura foi premiado como Melhor Ator. A trajetória culminou com indicações ao Oscar 2026 nas categorias Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Elenco - uma conquista histórica para o cinema nacional.

Na música, o funk brasileiro ocupa cada vez mais palcos internacionais, aparece com frequência em tendências do TikTok e se consolida em colaborações entre artistas nacionais e internacionais. O público pede - e aclama - a cultura singular do Brasil.

A diversidade dessa demanda mostra que não se trata de um produto específico, mas de algo maior: a busca pelo lifestyle brasileiro. Ouso dizer que o Brasil dá agora seus primeiros passos rumo a se tornar uma potência cultural comparável aos Estados Unidos ou ao Reino Unido.

Carregamos traços nacionais muito fortes, específicos e irreplicáveis. A demanda pelo consumo de tudo que vem do Brasil, aliada ao reconhecimento internacional de nossa arte, reflete a busca global por uma nova musa cultural.

O fim do sonho americano?

Resta a pergunta: estaria o mundo assistindo ao fim do sonho americano - e ao início de um “sonho brasileiro”?

Desde o início - ou retorno - da guerra entre Palestina e Israel, a comunidade internacional, em especial a União Europeia, tem sido vocal em sua desaprovação aos métodos de intervenção e veto estadunidenses. Um clima político já tensionado se agravou com a volta de Donald Trump ao poder, marcada por atos que desafiam padrões ocidentais de democracia: censura à liberdade de expressão, revogação de direitos femininos, altas taxações no comércio internacional, políticas extremas anti-imigração e uma postura reiteradamente arrogante no cenário global, muitas vezes intocável e inconsequente.

A crescente antipatia em relação aos Estados Unidos - tanto no cenário internacional quanto na mentalidade popular - diante de seus ataques às instituições democráticas abre espaço para que potências emergentes, como o Brasil, se insiram e se afirmem de forma mais definitiva no sistema internacional. Mas como isso se dá, na prática?

“O Brasil voltou”: a reconstrução da política externa

Quando Luiz Inácio Lula da Silva iniciou seu terceiro mandato presidencial, em 2023, enfatizou que “o Brasil voltou” e que estava disposto a retomar sua tradicional política externa ativa e extrovertida, após quatro anos de quase total isolamento internacional durante o governo Jair Bolsonaro. Apenas em seu primeiro ano no cargo, Lula realizou cerca de 30 viagens internacionais, defendendo uma política externa centrada em uma ordem mundial mais multilateral e representativa.

O Brasil retomou seu papel de liderança na América Latina, promovendo a integração econômica regional e a cooperação em esforços de mitigação das mudanças climáticas. Também passou a atuar em pontos críticos da região, como as tensões entre Venezuela e Guiana em torno do território disputado de Essequibo, reforçando sua posição como mediador diplomático.

Com a queda significativa nas taxas de desmatamento na Amazônia sob sua gestão, o país voltou a se destacar como defensor da proteção ambiental e porta-voz da justiça climática em nome do Sul Global. Nesse contexto, o Brasil assumiu a presidência do BRICS e sediou sua cúpula em 2025.

O BRICS - organização intergovernamental que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, Etiópia, Irã, Indonésia, África do Sul e Emirados Árabes Unidos - nasceu como uma aposta de Wall Street em potências emergentes capazes de desafiar o Ocidente. Hoje, porém, o que define o bloco é uma ambição mais sutil e estratégica: reduzir sua dependência da força gravitacional de Washington enquanto coopera para construir uma base industrial conjunta de alta tecnologia.

Diante da falha dos grandes poderes em cumprir promessas de financiamento climático, o BRICS respondeu criando seu próprio banco de desenvolvimento, com foco na promoção de uma industrialização verde. O rápido crescimento das energias renováveis fez com que os combustíveis fósseis representem hoje menos da metade da geração total de eletricidade do bloco.

Em meio à emergência climática, esse avanço é especialmente significativo para o Brasil como agente internacional. Os países-membros do BRICS lideram tecnologias verdes e possuem mercados consumidores em expansão, reunindo ferramentas e escala suficientes para impulsionar o crescimento industrial sustentável.

A ordem internacional do pós-guerra sustentava-se em três pilares: a dominância dos Estados Unidos, os hidrocarbonetos e o comércio aberto. Hoje, os três se encontram em processo de deterioração - em grande parte, por ações do próprio governo norte-americano.

A ameaça de Donald Trump de elevar tarifas sobre importações de países do bloco reflete a guinada dos EUA contra o comércio global. Ao impor tarifas ao Brasil por razões ligadas à política interna, Trump transforma a diplomacia econômica em retaliação pessoal e evidencia como a ordem baseada em regras vem se desfazendo.

Em meio à guerra fiscal promovida pelos Estados Unidos, o Brasil decidiu aproveitar a oportunidade para fortalecer seus laços econômicos com a China. Após a chegada da plataforma de varejo online Temu, em junho de 2024, o país passou a se preparar para receber novas multinacionais chinesas.

Em 11 de maio, durante visita oficial do presidente Lula à China, a empresa de entregas Meituan anunciou um investimento de 5,6 bilhões de reais no Brasil, com previsão de início das operações até o fim de 2025. No dia seguinte, a rede de sorvetes e chás Mixue revelou um plano de investimento de 3,2 bilhões de reais para abrir suas primeiras lojas no país.

Esses anúncios marcaram um ponto de virada nas relações econômicas sino-brasileiras. Em 2023, cerca de 72% do investimento chinês no Brasil - US$ 1,63 bilhão - concentrava-se nos setores de energia e automotivo. A chegada desses novos atores representa, segundo o economista Livio Ribeiro, da Fundação Getulio Vargas, “uma migração do investimento chinês em direção ao setor de serviços”.

O Brasil também sediou a COP30, em novembro, em um dos momentos mais frágeis e desafiadores para o Acordo de Paris desde sua adoção, há uma década. A conferência aprovou um pacote de decisões robusto, cumprindo três objetivos centrais: fortalecer o multilateralismo, conectar o multilateralismo climático às pessoas e acelerar a implementação do Acordo de Paris.

A COP30 equilibrou forças entre norte e sul, países desenvolvidos e em desenvolvimento, energia e natureza, tecnologia e pessoas, compromissos e implementação, mitigação e adaptação. No campo político, o Brasil liderou um debate global inédito sobre o futuro dos combustíveis fósseis.

Apesar da ausência de consenso - com mais de 80 países apoiando uma linguagem explícita e outros 80 se opondo -, a presidência brasileira anunciou, por iniciativa própria, a elaboração de dois processos estratégicos: um Mapa do Caminho para a Transição Justa, Ordenada e Equitativa dos Combustíveis Fósseis; e um Mapa do Caminho para Interromper e Reverter o Desmatamento.

Ao se inserir como regulador internacional - em conflitos humanitários, na governança climática e no mercado comercial - e ao adotar medidas para reduzir a dependência de estruturas imperialistas, o Brasil se afirma como a maior potência emergente do mundo. Consolida-se no cenário internacional ao mesmo tempo em que se destaca culturalmente, como discutido ao longo deste artigo.

São passos como esses que podem, de fato, determinar a chegada do tão buscado progresso nacional - aquele que, por tanto tempo, acreditamos inalcançável.

Ressignificando a “brasilianização”

A “brasilianização” provavelmente continuará sendo utilizada na sociologia para descrever o surgimento de disparidades sociais em países do chamado “primeiro mundo”. Mas seria possível que a ascensão do Brasil como potência global se torne um adendo à teoria? Uma ressignificação?

E se, desse processo de causa e consequência, emergisse uma conjuntura em que as particularidades do cenário brasileiro se tornassem justamente o motor de sua insurgência internacional?

Talvez esta seja nossa oportunidade de mudar a narrativa - ou melhor, de tomar as rédeas da narrativa que foi construída sobre nós - e abandonar essa concepção datada de falha nacional. Como cidadãos, devemos nos esforçar para reduzir o sentimento de frustração coletiva e olhar para o país com uma lente positiva, alerta, perspicaz e consciente de nossa evolução.

Para nossos líderes e elites, o desafio é não se isolarem nem analisarem o Brasil a partir de lentes eurocêntricas e inertes, mas sim com entusiasmo: utilizando nossos ativos como ferramentas de crescimento e nossas recentes vitórias como oportunidades reais de mudança e fortalecimento do nosso país.

Foto do Jornalista

Laura Mendonzza

Especialista em Relações Internacionais, formada pela Eötvös Loránd University. Residente na Hungria, escreve sobre política internacional, questões sociais e temas da atualidade. Também publica a coluna pessoal Unashamed, na qual aborda assuntos do cotidiano a partir de uma perspectiva reflexiva, explorando temas como relacionamentos, fenômenos sociais e filosofia.

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