Delegações deixam plenário da ONU durante fala de Netanyahu
O primeiro-ministro discursou sobre a guerra em Gaza.
Atualizado há 406 dias
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, discursou nesta sexta-feira (26) na Assembleia Geral da ONU em meio a forte contestação internacional. Antes de ele iniciar sua fala, representantes de diversos países, entre eles Brasil, Líbano, Arábia Saudita, Qatar, Coreia do Sul, Turquia e Venezuela, se retiraram do plenário em protesto contra a condução da guerra em Gaza (iniciada em 7 de outubro de 2023). O gesto foi interpretado como resposta às decisões ignoradas por Israel no Tribunal Penal Internacional e na Corte Internacional de Justiça.
Do lado de fora da sede da ONU, em Nova York, milhares de manifestantes marchavam contra os ataques israelenses, que já deixaram mais de 65 mil mortos em Gaza desde outubro de 2023, segundo autoridades palestinas. Dentro do salão, o contraste foi marcante: enquanto as cadeiras destinadas às delegações estavam em grande parte vazias, aliados como Estados Unidos, Reino Unido, França e Itália permaneceram, e convidados nas galerias aplaudiram o discurso de pé.
Em mais de 40 minutos — quase o triplo do tempo recomendado pela ONU —, Netanyahu buscou retratar o conflito como parte de uma “batalha global contra o terrorismo”. Criticou a crescente pressão internacional por cessar-fogo, rejeitou a criação de um Estado Palestino e chamou de “insanidade” o reconhecimento da Palestina por países ocidentais, como França e Reino Unido. “Dar um Estado à Palestina a um quilômetro de Israel é como dar um Estado à Al-Qaeda a um quilômetro de Nova York depois do 11 de setembro”, declarou.
O premiê negou acusações de genocídio e de fome deliberada na Faixa de Gaza, alegando que Israel distribuiu panfletos pedindo evacuação e que a escassez de alimentos seria causada pelo Hamas. “Os nazistas pediram aos judeus que partissem?”, questionou, ao rebater relatórios da ONU que apontam crimes de guerra.
Netanyahu exibiu cartazes, mapas e até um QR Code no paletó que, segundo ele, levava a registros das atrocidades cometidas pelo Hamas. Citou nomes de líderes mortos — como Yahya Sinwar, do Hamas, e Hassan Nasrallah, do Hezbollah — e afirmou que Israel também atingiu o programa nuclear iraniano e bases armadas no Iêmen e na Síria. “Nós incapacitamos o Hezbollah, derrubamos milhares de terroristas e devastamos as armas atômicas do Irã”, disse.

Em gesto simbólico, o premiê afirmou ter transmitido sua fala por alto-falantes na fronteira de Gaza e dirigiu-se em hebraico aos reféns em poder do Hamas: “Não nos esquecemos de vocês nem por um segundo. Nós os traremos de volta”. Também exigiu que o grupo entregue suas armas, ameaçando caçá-lo em todo o Oriente Médio.
Isolado diplomaticamente, Netanyahu voltou a agradecer ao ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, a quem chamou de aliado essencial. “Trump e eu prometemos impedir o Irã de desenvolver armas nucleares, e cumprimos essa promessa”, afirmou, relacionando tentativas de assassinato contra o republicano a “inimigos em comum”.
A delegação brasileira justificou o boicote como um ato de repúdio. “Não se trata do povo judeu, nem da existência de Israel, mas sim de respeito à população palestina”, disse Celso Amorim, assessor especial da Presidência. Ele alertou ainda para o risco de que o conflito se espalhe pelo Oriente Médio e se transforme em guerra global.
Netanyahu encerrou seu discurso reafirmando que Israel continuará a ofensiva em Gaza até “terminar o trabalho”, apesar da crescente pressão diplomática e dos protestos que se intensificam dentro e fora da ONU.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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