Foto: Elineudo Meira
Fim da escala 6x1 pode ser votado nesta quarta-feira (14) no Senado
Requerimento apoiado por 56 senadores busca acelerar a tramitação da PEC 221/2019, que prevê jornada semanal de 40 horas sem redução salarial.
Atualizado há 1 horas
O fim da escala de trabalho 6x1 pode avançar no Senado Federal nesta quarta-feira (14/10), com a possibilidade de votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 em primeiro e segundo turnos no mesmo dia. A sessão plenária está prevista para começar às 14h, mas a Casa ainda não confirmou o horário em que a matéria será discutida. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) articula a aprovação de um calendário especial para acelerar a tramitação.
A iniciativa ganhou força após a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), reunir o apoio de 56 senadores para apresentar o requerimento à Mesa Diretora. A articulação envolve nove partidos e três blocos parlamentares, em uma tentativa de reduzir o intervalo entre as etapas de discussão e votação da proposta.
O Partido dos Trabalhadores também apresentou um recurso para viabilizar a votação dos dois turnos em sequência. A estratégia busca antecipar a decisão do plenário e permitir que a PEC avance ainda nesta quarta-feira, embora a realização das votações dependa dos procedimentos regimentais e da condução dos trabalhos no Senado.
A proposta prevê o fim da escala 6x1 — seis dias de trabalho para um de descanso — e a redução da jornada semanal máxima de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial. O texto começou a tramitar no Senado após avançar na Câmara dos Deputados e passou por sessões de discussão obrigatórias antes de ficar apto à votação.
Flávio Bolsonaro muda de posição
A votação ganhou novo componente político após o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, anunciar na terça-feira (13/10) que votará a favor do fim da escala 6x1. A declaração representa uma mudança em relação às manifestações anteriores, quando ele criticava a proposta defendida pelo governo Lula e evitava assumir uma posição definitiva sobre o voto.
Até então, Flávio sustentava que sua alternativa seria mais adequada por permitir que trabalhadores escolhessem a própria carga horária. O senador também acusava o presidente de utilizar a discussão por interesse eleitoral, argumentando que a redução da jornada, nos moldes propostos, não resolveria os problemas dos trabalhadores e poderia provocar desemprego.
Em declarações anteriores, Flávio classificou a proposta do governo como oportunista e defendeu maior liberdade para negociações entre empregados e empregadores. Sua mudança de posição ocorre durante o segundo turno das eleições presidenciais, em que o tema se tornou um dos pontos de divergência entre os candidatos.
A jornada de trabalho também está presente nas propostas legislativas associadas aos dois políticos. Enquanto Lula defende a redução da jornada semanal sem corte salarial, Flávio assinou uma PEC de autoria do senador Rogério Marinho (PL-RN), que propõe um regime alternativo de contratação e remuneração por hora trabalhada.
O que prevê a proposta defendida por Lula
A PEC 221/2019 estabelece como objetivo a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, além da superação do modelo de seis dias de trabalho para um de descanso. A proposta é uma das prioridades trabalhistas do governo federal e integra o programa de Lula para o segundo mandato.
No plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o presidente se compromete a atuar junto ao Senado para garantir o fim da escala 6x1 e a redução da jornada, nos termos aprovados pela Câmara dos Deputados.
Lula tem defendido publicamente a mudança, associando a redução do tempo de trabalho à qualidade de vida, ao convívio familiar e à distribuição dos ganhos de produtividade. O presidente também argumenta que a sobrecarga atinge especialmente as mulheres, que frequentemente acumulam o emprego remunerado com as tarefas domésticas e os cuidados com os filhos.
Em manifestações anteriores, Lula criticou a possibilidade de redução salarial vinculada à diminuição da jornada e questionou a posição de Flávio Bolsonaro sobre o tema. A estratégia eleitoral do PT passou a incluir a cobrança de um posicionamento claro do adversário e a apresentação da votação como um teste para os partidos e os senadores.
A proposta defendida pelo governo, portanto, combina dois pontos centrais: menos horas de trabalho por semana e manutenção dos salários. A intenção é ampliar o tempo de descanso sem transferir ao trabalhador o custo financeiro da mudança.
PEC alternativa propõe remuneração proporcional às horas trabalhadas
A PEC 12/2026, apresentada por Rogério Marinho e assinada por Flávio Bolsonaro e outros senadores, propõe um regime alternativo à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). O modelo permitiria que empregado e empregador escolhessem entre o contrato tradicional e uma modalidade na qual a remuneração e determinados benefícios fossem calculados proporcionalmente às horas efetivamente trabalhadas.
Entre os direitos que poderiam ter valores proporcionais nesse regime estão o 13º salário, as férias e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). A proposta também prevê maior flexibilidade na organização dos horários, sem um teto semanal fixo nos moldes do regime tradicional.
Defensores da iniciativa apresentam a medida como uma alternativa para ampliar a liberdade de escolha e facilitar a entrada no mercado de trabalho, especialmente para pessoas que precisam conciliar a atividade profissional com outras responsabilidades.
Críticos, por outro lado, apontam riscos de precarização das relações de trabalho e de enfraquecimento das garantias legais. A preocupação é que a desigualdade de poder de negociação entre empregadores e trabalhadores limite a liberdade real de escolha e resulte em jornadas mais extensas ou remunerações menores.
O princípio do chamado negociado sobre o legislado está no centro dessa divergência. Enquanto os defensores da proposta alternativa priorizam a flexibilidade dos contratos, os apoiadores da PEC 221/2019 sustentam que a redução da jornada e a preservação dos salários devem ser garantidas por lei, sem depender exclusivamente de acordos individuais.
O plano de governo de Flávio Bolsonaro não menciona nominalmente a escala 6x1 nem a PEC 12/2026, mas defende a adoção de jornadas flexíveis e a ampliação da autonomia nas negociações entre empresas e trabalhadores.
Governo busca transformar proposta em direito garantido
A líder do governo no Senado, Teresa Leitão, defende que a redução da jornada seja tratada como uma garantia legal, e não como uma conquista condicionada à capacidade individual de negociação de cada empregado.
“Há direitos que não podem depender exclusivamente da capacidade de negociação de cada trabalhador”, afirmou a senadora ao defender a atuação do Estado na proteção das relações de trabalho.
A parlamentar também relacionou a discussão a direitos trabalhistas consolidados, como férias remuneradas, 13º salário e descanso semanal. Para o governo, a mudança na escala de trabalho deve acompanhar as transformações na organização da produção e permitir que os ganhos de produtividade também se convertam em benefícios para os trabalhadores.
A reunião de apoio parlamentar e o pedido de calendário especial representam uma tentativa de acelerar a análise da PEC em meio à disputa eleitoral. Mesmo com o número de assinaturas reunidas, a votação em dois turnos nesta quarta-feira não está automaticamente garantida: o andamento depende da tramitação regimental e da definição da pauta pelo Senado.
Redução da jornada tem histórico de mais de um século
A discussão sobre a redução do tempo de trabalho faz parte de um processo histórico que atravessa diferentes países e modelos econômicos. Em 1926, o empresário Henry Ford adotou a semana de cinco dias e a jornada de 40 horas em suas fábricas, ajudando a popularizar um formato que se disseminaria ao longo das décadas seguintes.
A decisão ocorreu em um contexto de mudanças na produção industrial. A linha de montagem e os ganhos de eficiência permitiam fabricar mais em menos tempo, enquanto a ampliação do descanso e dos salários também poderia estimular o consumo de bens produzidos pelas próprias empresas.
A experiência da Ford contribuiu para demonstrar que a redução da jornada não significava necessariamente uma queda proporcional da produção. O modelo, no entanto, não surgiu apenas de uma preocupação social: também estava relacionado à organização industrial, à produtividade e à expansão do mercado consumidor.
No Brasil, a regulamentação da jornada avançou principalmente a partir da década de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas. A Constituição de 1988 estabeleceu o limite de 44 horas semanais, consolidando uma redução em relação às 48 horas que vigoravam anteriormente.
Desde então, diferentes setores passaram a adotar jornadas de 40 horas semanais, especialmente por meio de acordos coletivos e políticas empresariais. A escala 5x2, com cinco dias de trabalho e dois de descanso, tornou-se comum em determinadas atividades, mas não foi universalizada.
A proposta em discussão no Senado retoma esse debate em um cenário marcado por transformações tecnológicas, mudanças nas relações de emprego e questionamentos sobre a distribuição dos ganhos de produtividade.
Votação pode marcar novo capítulo da disputa eleitoral
O fim da escala 6x1 passou a ocupar posição central no confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro durante o segundo turno. Para o presidente, a redução da jornada sem corte salarial representa uma medida de proteção social e melhoria das condições de vida. Flávio, por sua vez, vinha defendendo um modelo baseado na flexibilidade dos contratos e na possibilidade de escolha da carga horária.
O anúncio de voto favorável do senador altera o cenário político em torno da proposta, mas não elimina as diferenças entre os modelos defendidos pelos dois candidatos. A PEC 221/2019 estabelece uma redução geral da jornada semanal, enquanto a PEC 12/2026 propõe uma modalidade alternativa de contratação, com remuneração proporcional às horas trabalhadas.
A sessão desta quarta-feira (14/10), prevista para começar às 14h, poderá definir os próximos passos da proposta que prevê o fim da escala 6x1. O horário específico da discussão ainda não foi confirmado pelo Senado, e a possibilidade de votação dos dois turnos no mesmo dia depende da condução dos trabalhos legislativos.
A decisão dos senadores terá impacto sobre o futuro da jornada de trabalho no país e deverá permanecer no centro do debate político durante a reta final da eleição presidencial.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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