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Imagem da notícia Da esquerda para a direita: Trump e Lula/Fotos: Jonas Roosens e Fabio Rodrigues

Soberania ameaçada: pressão dos EUA entra no centro da eleição brasileira

Vídeo do Departamento de Estado sobre o domínio estadunidense nas Américas ocorre em meio a tarifas, sanções e atritos diplomáticos que envolvem Lula, Flávio Bolsonaro e o processo eleitoral brasileiro.

Atualizado há 1 horas

A soberania brasileira entrou no centro da crise entre Brasil e Estados Unidos em meio à escalada de medidas políticas, econômicas e diplomáticas de Washington e à disputa presidencial de 2026. Nesta terça-feira (11/08), o Departamento de Estado estadunidense publicou um vídeo afirmando que o domínio dos EUA sobre as Américas “nunca mais será questionado” e recuperando a Doutrina Monroe, formulada no século XIX para estabelecer a primazia de Washington sobre o continente.

A publicação ocorreu no mesmo momento em que a relação entre os dois países atravessa um dos períodos mais delicados de sua história recente. O governo de Donald Trump já adotou tarifas contra produtos brasileiros, impôs sanções a autoridades do país, cancelou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e mantém uma disputa pública com o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

À frente do Departamento de Estado está Marco Rubio, um dos principais integrantes da ala ideológica do governo Trump e também assessor de segurança do presidente estadunidense. Rubio já declarou que as Américas constituem uma área de interesse direto dos Estados Unidos e, segundo assessores do governo brasileiro, passou a tratar a América Latina como uma frente prioritária da política externa estadunidense.

Foto: Eric Lee
Foto: Eric Lee

Doutrina Monroe volta ao discurso de Washington

O vídeo divulgado pelo Departamento de Estado apresenta um histórico da Doutrina Monroe e cita episódios de intervenção dos Estados Unidos na América Latina. Entre os exemplos está a ofensiva estadunidense contra o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela.

Para interlocutores do governo Lula, a escolha do momento e do conteúdo da publicação não é casual. A avaliação é de que Washington pretende deixar explícito que considera a região parte de sua esfera estratégica de influência e que está disposto a utilizar instrumentos econômicos, diplomáticos e políticos para defender seus interesses.

Nesse cenário, a China aparece como o principal concorrente dos Estados Unidos na disputa por influência na América do Sul. O Brasil, pela dimensão de sua economia, território e peso político regional, ocupa posição estratégica nesse embate.

Assessores de Lula comparam a ala ideológica do governo Trump, liderada por Rubio, aos personagens de “Pinguins de Madagascar” pilotando o Air Force One. A crítica é uma forma irônica de questionar o que consideram uma política externa marcada por confrontos e interferências.

Pressão sobre Lula e aproximação com Flávio Bolsonaro

A avaliação de integrantes do governo brasileiro é de que Rubio pretende evitar uma nova vitória eleitoral de Lula e ampliar a presença de governos alinhados à direita na América do Sul. Nesse cálculo, o Brasil seria uma peça central.

A aproximação entre Washington e Flávio Bolsonaro (PL) passou a ser apontada como um dos elementos mais visíveis dessa estratégia. O senador e pré-candidato à Presidência esteve nos Estados Unidos em maio e se reuniu com Trump, Rubio e o vice-presidente estadunidense, JD Vance.

Na ocasião, Flávio defendeu que os Estados Unidos classificassem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A designação ocorreu posteriormente, em 05/06, e passou a ser explorada pelo político como resultado de sua articulação internacional.

O episódio é citado por críticos do governo estadunidense como possível exemplo de interferência eleitoral, já que a medida coincidiu com a pré-campanha presidencial brasileira. Washington, por outro lado, sustenta que suas decisões são motivadas por interesses de segurança e política externa dos Estados Unidos.

Outro episódio que chamou atenção foi o encontro de Flávio com Darren Beattie, assessor do Departamento de Estado para assuntos relacionados ao Brasil. Segundo relatos divulgados pela imprensa, Beattie foi até o hotel onde o senador estava hospedado em Washington.

Beattie e Ricardo Pita, conselheiro sênior do Departamento de Estado para o Hemisfério Ocidental, são apontados por interlocutores brasileiros como integrantes de uma ala particularmente próxima ao bolsonarismo dentro da diplomacia estadunidense.

Tarifas entram na disputa política

A crise comercial também passou a ser associada à disputa eleitoral. Em 02/06, Trump publicou uma fotografia ao lado de Flávio Bolsonaro na Casa Branca e o descreveu como um jovem inteligente que “ama muito” o Brasil. 

Horas depois, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) anunciou uma proposta de tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, atribuindo a decisão a práticas que, segundo Washington, prejudicariam empresas estadunidenses.

Rubio posteriormente responsabilizou diretamente Lula pela deterioração das negociações. Em publicação nas redes sociais, afirmou que o presidente brasileiro não teria negociado de “boa-fé” e associou as tarifas às políticas econômicas do governo.

A versão é contestada por integrantes da diplomacia brasileira, que afirmam ter seguido os canais tradicionais de negociação com Washington. A disputa criou uma situação politicamente favorável para a oposição brasileira, que passou a atribuir ao governo Lula parte dos efeitos econômicos das tarifas.

Da esquerda para a direita: Lula e Rubio/Fotos: Agência Reuters
Da esquerda para a direita: Lula e Rubio/Fotos: Agência Reuters

Tentativa de discutir urnas também provoca atrito

Outro ponto de conflito envolve o sistema eleitoral brasileiro. No fim de julho, o governo brasileiro negou vistos a dois integrantes do Departamento de Estado estadunidense, Riley Barnes e Samuel Samson, que pretendiam viajar ao país.

Segundo o governo Lula, havia preocupação de que a missão pudesse alimentar questionamentos sobre a segurança das urnas eletrônicas e da eleição brasileira. Washington negou que esse fosse o objetivo da viagem.

O episódio ocorreu depois de outros atritos envolvendo integrantes do governo Trump e autoridades brasileiras. A tentativa de Darren Beattie de visitar Jair Bolsonaro também havia sido barrada, enquanto o governo brasileiro passou a analisar com cautela a indicação de Daniel Perez para a embaixada estadunidense em Brasília.

Perez, político da Flórida sem carreira diplomática, foi aprovado pelo Senado estadunidense para ocupar o posto. O governo Lula, entretanto, sinalizou que não pretende acelerar o processo de aceitação do novo embaixador antes das eleições.

Como resposta, os Estados Unidos cancelaram o visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti, diplomata de carreira. A medida ampliou o desgaste entre os dois governos e elevou a possibilidade de novas retaliações diplomáticas.

Consulado estadunidense também entra no debate

A atuação estadunidense no debate político brasileiro não ficou restrita às autoridades. Em julho, o consulado dos Estados Unidos em São Paulo recebeu influenciadores ligados ao campo conservador para uma conversa sobre liberdade de expressão e ambiente digital.

O encontro foi divulgado por participantes nas redes sociais. A iniciativa ganhou repercussão porque ocorre em meio à narrativa de setores da direita brasileira de que decisões do Judiciário representam censura e perseguição política.

Para críticos da política de Washington, a reunião contribui para dar visibilidade internacional a uma das principais bandeiras da oposição brasileira. Para os Estados Unidos, encontros com representantes da sociedade civil e do setor de comunicação fazem parte da atuação diplomática.

Soberania e risco de interferência

A escalada ultrapassou a esfera diplomática e passou a envolver diretamente a discussão sobre soberania nacional. O governo brasileiro já manifestou preocupação com a possibilidade de operações estadunidenses em território ou águas próximas ao Brasil, especialmente depois das ações militares dos Estados Unidos no Caribe e da operação que resultou na captura de Nicolás Maduro.

Lula e o ministro da Defesa, José Múcio, reconheceram publicamente a disparidade militar entre os dois países. O presidente passou a utilizar o tema da soberania como uma das principais respostas políticas à pressão de Washington.

A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas também provocou preocupação em Brasília. Embora o governo estadunidense apresente a medida como instrumento de combate ao crime organizado, autoridades brasileiras questionam possíveis efeitos sobre a autonomia das instituições nacionais e sobre eventuais ações unilaterais dos Estados Unidos.

O que pode acontecer se Lula vencer?

A crise abriu ainda uma discussão sobre o comportamento de Washington diante do resultado das urnas. Analistas passaram a considerar a possibilidade de os Estados Unidos adotarem uma postura fria ou retardarem o reconhecimento de uma eventual vitória de Lula.

Para Márcio Coimbra, presidente do Instituto Monitor da Democracia, ignorar esse risco diante do atual cenário seria inadequado. Ao mesmo tempo, ele considera prematuro tratar uma eventual recusa formal do resultado como algo iminente.

O cenário mais provável, segundo essa avaliação, seria a continuidade da pressão política, de críticas ao processo eleitoral e de possíveis sanções seletivas. Uma rejeição oficial do resultado, por outro lado, representaria uma ruptura muito mais grave e poderia contrariar os próprios interesses estratégicos estadunidenses na região.

A questão ganha peso porque a eleição brasileira ocorre em meio a uma disputa cada vez mais polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro. Enquanto o governo petista apresenta a atuação de Washington como ameaça à soberania brasileira, a oposição busca explorar as críticas estadunidenses ao Judiciário, às decisões sobre redes sociais e ao processo envolvendo Jair Bolsonaro.

Flavio Bolsonaro em visita a Trump/Foto: Reprodução das redes sociais de Flavio Bolsonaro
Flavio Bolsonaro em visita a Trump/Foto: Reprodução das redes sociais de Flavio Bolsonaro

Uma crise que vai além da diplomacia

A sucessão de episódios (tarifas, cancelamento de vistos, pressão sobre autoridades brasileiras, aproximação com a oposição, debate sobre as urnas e a retomada da Doutrina Monroe) transformou o relacionamento entre Brasília e Washington em um dos principais temas da campanha presidencial.

O conflito, portanto, deixou de ser apenas uma disputa comercial ou diplomática. A questão central passou a ser até onde os Estados Unidos pretendem avançar para defender seus interesses políticos e estratégicos no Brasil e qual será a resposta de Brasília para preservar sua autonomia.

Com a eleição de outubro se aproximando, qualquer nova medida de Washington poderá ter impacto simultaneamente na relação bilateral, na economia brasileira e na disputa pelo Palácio do Planalto. A soberania, que tradicionalmente ocupa espaço secundário nas campanhas eleitorais, tornou-se uma das principais linhas de confronto entre os dois países.

Foto do Jornalista

Rayza Espírito Santo

Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.

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