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Imagem da notícia Aplicativo de entrega acompanha velocidade de deslocamento do entregadores/Foto: Reprodução

Algoritmo "na cola": pressão por rapidez coloca entregadores em risco

Cobranças por velocidade, cronômetros e bônus são alvo de denúncia ao MPT; trabalhador afirma que sistema pode induzir motociclistas a correr no trânsito.

Atualizado há 1 horas

Uma corrida contra o relógio, determinada por algoritmos, pode estar colocando entregadores de motocicleta diante de uma escolha perigosa: cumprir metas de tempo ou perder pedidos e correr o risco de bloqueios. A denúncia apresentada ao Ministério Público do Trabalho (MPT) em São Paulo aponta que trabalhadores recebem alertas de que sua velocidade está “abaixo do esperado”, além de serem submetidos a cronômetros para aceitar chamadas e incentivos financeiros ligados à rapidez das entregas.

A representação foi protocolada pelo entregador Elias Pereira Freitas da Silva Júnior, conhecido como JR Freitas, após receber relatos de motociclistas preocupados com a forma como o sistema estabelece prazos e avalia seu desempenho. Segundo ele, a cobrança pode gerar tensão justamente quando o trabalhador está no trânsito, sujeito a congestionamentos, semáforos, chuva e condições adversas das ruas.

Um dos pontos questionados é a falta de transparência sobre os critérios utilizados pelo algoritmo. A denúncia pergunta se o sistema considera as condições reais encontradas pelos motociclistas antes de classificá-los como lentos. A preocupação é que uma demora provocada por um congestionamento ou sinal fechado seja interpretada pela plataforma como baixa produtividade.

Cronômetro e ameaça de perder a corrida

A pressão, segundo a representação, não estaria restrita ao tempo da entrega. Ao receber um chamado, o motociclista teria até 49 segundos para responder. Durante esse intervalo, uma mensagem informa que outros entregadores estão na fila e podem assumir o pedido.

Para Freitas, o mecanismo pode provocar ansiedade e tirar a atenção do trânsito. O trabalhador também questiona a existência de bônus associados à realização das entregas em menor tempo, argumentando que incentivos financeiros podem estimular comportamentos mais arriscados.

“O trabalhador está no trânsito, muitas vezes parado por um congestionamento ou um semáforo, e recebe uma mensagem dizendo que está abaixo da velocidade. Isso gera desespero porque ele acredita que pode ser bloqueado”, afirmou.

A representação pede que o MPT determine a preservação de dados de geolocalização, mensagens encaminhadas aos entregadores, critérios de remuneração e histórico de bloqueios. Também solicita a suspensão dos alertas de velocidade até que seus impactos sobre a segurança sejam avaliados, além de auditoria independente do algoritmo e maior transparência sobre pagamentos e bloqueios.

Pressão que vai além das ruas

A discussão ganha dimensão ainda maior diante do modelo de trabalho observado na China, onde a Meituan se tornou líder no setor de entregas. Relatos de trabalhadores apontam jornadas de dez a 12 horas e dezenas de pedidos por dia, com desempenho medido por índices de pontualidade e satisfação dos clientes.

Um entregador considerado de alto desempenho pela empresa relata fazer entre 50 e 60 entregas diariamente. O livro Faço Entregas em Pequim – Memórias de um Trabalhador, de Hu Anyan, descreve jornadas superiores a 70 horas semanais e condições extenuantes enfrentadas por trabalhadores do setor.

O debate sobre segurança dos motociclistas também ganhou força na China em meio a relatos de acidentes relacionados à pressão por velocidade. A experiência chinesa alimenta a preocupação de trabalhadores brasileiros sobre os efeitos de um modelo em que o algoritmo define prazos, mede desempenho e pode influenciar remuneração e acesso aos pedidos.

MPT já investiga velocidade de entregadores

Procurado sobre o caso, o MPT não informou detalhes da denúncia, mas declarou que já existe uma investigação relacionada à velocidade dos entregadores e aos riscos à segurança no trânsito diante do aumento de mortes na capital paulista.

A empresa citada na representação nega que seus mecanismos pressionem os trabalhadores a exceder limites de velocidade. Em nota, afirma que utiliza inteligência artificial para calcular rotas, reduzir esperas e organizar as entregas, sustentando que a rapidez prometida aos consumidores é resultado de tecnologia e planejamento.

Para os trabalhadores, porém, a questão central permanece: até onde um algoritmo pode cobrar velocidade de quem está sobre uma motocicleta no meio do trânsito sem transformar uma entrega atrasada em uma ameaça à própria vida?

Foto do Jornalista

Rayza Espírito Santo

Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.

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