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Campanha da Universal combina fé e mobilização política para 2026
Projeto prevê tarefas diárias, cadastro de seguidores e conteúdos sobre pautas políticas; especialistas apontam possível uso eleitoral da estrutura religiosa.
Atualizado há 1 horas
A Igreja Universal do Reino de Deus inicia nesta quinta-feira (13/08) o “Desafio de Neemias”, uma jornada de 52 dias que terminará em 04/10, data do primeiro turno das eleições de 2026. Apresentado oficialmente como uma iniciativa de fé e reconstrução espiritual, o projeto mobiliza fiéis e voluntários em uma campanha que também envolve conteúdos políticos e a promoção de candidatos ligados à denominação.
Inspirado na narrativa bíblica de Neemias, personagem associado à reconstrução dos muros de Jerusalém, o projeto propõe aos participantes a realização de uma tarefa por dia. Para aderir, é necessário criar uma conta no site da campanha, com identificação facial, senha e informações sobre o templo e a localização do fiel. Até 04/08, o número de cadastrados informado pela plataforma chegava a 154 mil.
Segundo relatos de pastores e ex-integrantes da Universal citados na reportagem, a mobilização tem entre seus objetivos ampliar o apoio eleitoral aos bispos, pastores e outros candidatos ligados à igreja. O ex-pastor Davi Vieira afirma que, em reunião da cúpula da denominação no Rio, foi estabelecida a orientação para que cada participante buscasse outros 52 integrantes para o projeto.
Durante os 52 dias, os seguidores devem receber vídeos, reflexões religiosas, notícias e orientações sobre temas políticos relacionados a família, sexualidade, legislação e supostas perseguições a cristãos. Entre os conteúdos divulgados estão textos sobre ataques a igrejas, projetos em discussão no Congresso e liberdade para sermões e pregações.
A Universal afirma que a iniciativa tem como foco a proteção da família, dos valores cristãos e da vida espiritual. O teólogo Fábio Py, professor do programa de pós-graduação em Sociologia Política do Iuperj, avalia que a estratégia também busca aproximar os fiéis dos candidatos apoiados pela denominação e recuperar capacidade de influência política dentro da própria igreja.
A atuação eleitoral da Universal ocorre em um contexto no qual o Republicanos, partido historicamente associado à denominação, decidiu pela neutralidade na disputa presidencial. A legenda, porém, reúne candidatos ligados à igreja e mantém alianças com diferentes nomes nos estados. No Rio de Janeiro, por exemplo, a Universal avalia apoiar Eduardo Paes (PSD) ao governo estadual, enquanto em Goiás declara apoio ao deputado federal Gustavo Gayer (PL) para o Senado.
A mobilização política da igreja não começou com o “Desafio de Neemias”. Desde 2025, a Universal utiliza iniciativas como o programa “Me Dê a Mão” para estimular fiéis a apresentar familiares, amigos e conhecidos à denominação. Conteúdos de candidatos ligados à igreja também são distribuídos por aplicativos e grupos de WhatsApp.
Em fevereiro, a Universal ainda realizou uma pesquisa interna para identificar preferências políticas de seus seguidores. O questionário solicitava informações sobre os templos frequentados e perguntava em quem os participantes votariam para deputado caso a eleição fosse naquele momento. No Rio, nomes ligados à Assembleia Legislativa e à Câmara dos Deputados foram apresentados aos entrevistados.
O advogado Fernando Neisser, professor de Direito Eleitoral da FGV, considera que a utilização da estrutura da igreja para fins eleitorais pode, dependendo da forma como ocorrer, caracterizar abuso de poder econômico. Ele, contudo, não identificou ilegalidade apenas na realização da pesquisa interna.
A Constituição brasileira estabelece a separação entre Estado e religião, garantindo simultaneamente a liberdade religiosa e a participação política dos cidadãos. Igrejas e seus integrantes podem manifestar posições políticas, mas práticas de pressão, coação ou uso irregular de recursos e estruturas para influenciar o voto podem ser submetidas à análise da Justiça Eleitoral.
A Universal foi procurada para comentar o conteúdo e as acusações apresentadas por pastores e ex-pastores, mas não havia respondido até o fechamento da reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.
Fonte: ICL Notícias

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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