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Emenda ao PL da Misoginia gera reação por possível impacto na Lei do Racismo

Emenda aprovada na Comissão de Segurança Pública restringe o conceito de misoginia, cria exceção para manifestações de opinião e provoca reação de parlamentares da oposição, que apontam risco de enfraquecimento da Lei do Racismo.

Atualizado há 1 horas

A Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados aprovou, na terça-feira (14/07), uma emenda de plenário apresentada pelo deputado federal Capitão Alden (PL-BA) ao Projeto de Lei 896/2023, conhecido como "PL da Misoginia". A proposta altera pontos centrais do texto que tramita na Casa e abriu um debate entre parlamentares sobre os limites entre liberdade de expressão e a punição a crimes de discriminação.

Um dos principais trechos da emenda estabelece que não configura crime a "manifestação de opinião, convicção religiosa, filosófica, científica, acadêmica ou política", desde que essa manifestação não represente "incitação direta e inequívoca à violência ou à prática de discriminação vedada por esta lei". O dispositivo também alcança o artigo da Lei do Racismo ao qual o projeto faz referência, tornando-se o ponto mais controverso da proposta.

Além disso, a emenda substitui o termo "misoginia" pela expressão "prática dolosa de discriminação contra mulheres em razão de seu sexo". Pela nova redação, somente condutas praticadas de forma intencional e voltadas a restringir direitos, promover segregação ou incitar violência contra mulheres seriam enquadradas como crime.

Segundo Capitão Alden, as alterações preservam o objetivo de combater a discriminação contra mulheres, mas oferecem maior segurança jurídica e evitam interpretações subjetivas da legislação penal. O deputado afirma que a proposta busca resguardar garantias constitucionais, como a liberdade de expressão, de consciência, religiosa e de ensino.

"O texto protege direitos fundamentais previstos na Constituição e impede que conceitos vagos sejam utilizados para criminalizar opiniões que não representem incitação à violência ou à discriminação", argumentou o parlamentar ao justificar a emenda.

Veja o texto na íntegra: https://static.congressoemfoco.com.br/2026/07/15/attachment/2026/07/15/9bcf5f_req_308_2026_cspcco.pdf?_gl=1*eanlu4*_ga*MjAyMDc4NjM3Ni4xNzg0MzAwMTUx*_ga_V46CYWTD2Z*czE3ODQzMDAxNTEkbzEkZzAkdDE3ODQzMDAxNTEkajYwJGwwJGgw

Capitão Alden/Foto: Vinicius Loures (Câmara dos Deputados)
Capitão Alden/Foto: Vinicius Loures (Câmara dos Deputados)

Reação da oposição

A aprovação provocou forte reação de parlamentares da oposição. A deputada Erika Hilton (Psol-SP) afirmou que a medida pode enfraquecer a Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989) ao criar exceções para manifestações de opinião em casos relacionados ao crime.

Nas redes sociais, Hilton classificou a proposta como uma tentativa de esvaziar a legislação antirracista e afirmou que, caso a emenda seja aprovada pelo plenário juntamente com o projeto, poderá haver uma brecha para descaracterizar a punição ao racismo em determinadas situações.

Junto com a deputada Jack Rocha (PT-MG), Erika protocolou uma emenda alternativa para tentar barrar as mudanças durante a tramitação da matéria. A parlamentar também declarou que continuará defendendo a aprovação da criminalização da misoginia sem as alterações aprovadas na Comissão de Segurança Pública.

Erika Hilton (PSOL-SP)/Foto: Reprodução
Erika Hilton (PSOL-SP)/Foto: Reprodução

A deputada Fernanda Melchionna (Psol-RS), que participou da sessão para protestar contra a votação, também criticou a proposta. Segundo ela, a emenda amplia a possibilidade de discursos discriminatórios serem justificados como manifestações de natureza política, filosófica ou científica.

Histórico do projeto

O PL 896/2023 é de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA) e foi aprovado por unanimidade no Senado em março deste ano. A proposta prevê equiparar a misoginia ao crime de racismo.

Na Câmara, o texto passou a ser relatado pela deputada Tábata Amaral (PSB-SP), que apresentou um substitutivo com alterações na definição do crime. Em vez do conceito mais amplo aprovado pelo Senado — que tratava a misoginia como conduta que exterioriza ódio ou aversão às mulheres —, o parecer da relatora passou a definir o delito como prática, indução ou incitação à violência, restrição de direitos ou ofensa à dignidade da mulher em razão de sua condição.

O projeto já teve o regime de urgência aprovado, permitindo que seja votado diretamente pelo plenário da Câmara, sem necessidade de análise pelas demais comissões.

Fernanda Melchionna (PSOL-RS)/ Foto: Kayo Magalhães (Câmara dos Deputados)
Fernanda Melchionna (PSOL-RS)/ Foto: Kayo Magalhães (Câmara dos Deputados)

Próximos passos

Apesar da aprovação da emenda na Comissão de Segurança Pública, ainda não há consenso para a votação do projeto no plenário. A expectativa é que a matéria seja analisada somente após o recesso parlamentar, em agosto, ou depois das eleições de outubro.

Quando o texto for levado ao plenário, os deputados também deverão deliberar sobre as emendas apresentadas ao projeto, incluindo a proposta aprovada na Comissão de Segurança Pública e as alterações protocoladas por parlamentares da oposição.

Foto do Jornalista

Rayza Espírito Santo

Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.

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