Efeitos extremos do fenômeno climático/Imagem ilustrativa gerada por I.A.
ONU alerta para El Niño forte e prevê meses de eventos climáticos extremos no mundo
Organização Meteorológica Mundial estima mais de 90% de chance de desenvolvimento do fenômeno até novembro e pede preparação urgente para impactos na agricultura, energia, saúde e abastecimento de água.
Atualizado há 1 horas
A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência especializada das Nações Unidas (ONU), emitiu nesta terça-feira (02/06) um alerta global sobre a alta probabilidade de formação de um novo episódio de El Niño nos próximos meses. Segundo a entidade, há 80% de chance de desenvolvimento do fenômeno entre junho e agosto e uma probabilidade próxima ou superior a 90% de que ele permaneça ativo até novembro.
Os modelos climáticos analisados pela organização indicam que o evento deverá ser, no mínimo, moderado, com possibilidade de atingir intensidade forte. A preocupação da ONU é que o fenômeno agrave eventos extremos em diversas regiões do planeta, ampliando períodos de seca, chuvas intensas e ondas de calor em terra e nos oceanos.
“Precisamos nos preparar para um possível evento El Niño forte, que exacerbará a seca e as chuvas intensas e aumentará o risco de ondas de calor tanto em terra quanto no oceano”, afirmou a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo.
A agência ressalta que, mesmo em intensidade moderada, o El Niño já aumenta significativamente a probabilidade de eventos climáticos severos. O fenômeno anterior, registrado entre 2023 e 2024, foi um dos cinco mais fortes já observados e contribuiu para recordes globais de temperatura.
Brasil está entre os países sob maior atenção
O Brasil aparece entre os países que podem sofrer impactos expressivos caso o fenômeno se confirme com a intensidade prevista. De acordo com a OMM, os efeitos podem incluir agravamento da seca na Amazônia e no Nordeste, aumento do risco de incêndios florestais, redução dos níveis dos reservatórios hidrelétricos e episódios de chuvas intensas no Sudeste.
Celeste Saulo destacou que a situação preocupa especialmente por ocorrer em um momento em que algumas regiões ainda se recuperam de eventos climáticos recentes.
“A Bacia Amazônica esteve sob estresse por muitos meses e estava se recuperando”, alertou a dirigente da OMM.
Ela também chamou atenção para possíveis reflexos no setor energético brasileiro.
“Precisamos ficar atentos à geração de energia por hidrelétricas. Normalmente, as secas no Nordeste tendem a ser severas e água é um problema”, afirmou.
No Sudeste, o cenário é oposto. Segundo a especialista, cidades como Rio de Janeiro e São Paulo podem enfrentar aumento no volume de chuvas, enchentes e deslizamentos de terra.
“O caso do Sudeste, incluindo cidades como São Paulo e Rio, em geral enfrenta enchentes, chuvas intensas e deslizamentos. Isso seria a outra consequência”, explicou.
Fenômeno pode ampliar efeitos do aquecimento global
Embora a OMM destaque que não há evidências de que as mudanças climáticas aumentem a frequência ou a intensidade do El Niño, a entidade avalia que o aquecimento global potencializa seus impactos.
A explicação é que oceanos e atmosfera mais quentes armazenam mais energia e umidade, criando condições favoráveis para eventos extremos mais intensos. Isso pode resultar em ondas de calor mais severas, tempestades mais fortes e períodos prolongados de estiagem.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o fenômeno como um alerta climático urgente para a comunidade internacional.
“A ciência é clara: o El Niño está chegando à nossa porta nos próximos meses com 90% de certeza. O mundo precisa tratá-lo como o alerta climático urgente que ele é”, declarou.
Segundo Guterres, os efeitos do fenômeno tendem a ultrapassar fronteiras e atingir diferentes regiões simultaneamente.
“Os impactos serão ainda mais fortes, viajarão ainda mais longe e cruzarão fronteiras com velocidade devastadora”, alertou.
O secretário-geral defendeu ainda a ampliação de políticas climáticas e sistemas de monitoramento para reduzir danos à população.
“A única resposta eficaz é uma ação climática à altura da crise: acabar com a dependência dos combustíveis fósseis, acelerar a transição para energias renováveis, proteger os mais vulneráveis e fornecer sistemas de alerta precoce para todos”, afirmou.
O que é o El Niño
O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial central e oriental. Ele integra o ciclo conhecido como Oscilação Sul do El Niño (ENSO), que alterna entre três fases: El Niño, La Niña e neutralidade climática.
O fenômeno costuma ocorrer a cada dois a sete anos e geralmente dura entre nove e doze meses. Seu pico normalmente acontece entre o fim de um ano e o início do seguinte, embora os efeitos possam se prolongar por períodos maiores.
Entre os sinais observados atualmente pelos cientistas estão temperaturas da superfície do mar próximas aos limites que caracterizam o El Niño e águas subsuperficiais mais de 6°C acima da média histórica em partes do Pacífico tropical.
Segundo a OMM, essas condições criam um grande reservatório de calor capaz de impulsionar o aquecimento da superfície oceânica e favorecer a consolidação do fenômeno.
Lembranças recentes aumentam preocupação
O último episódio de El Niño trouxe impactos significativos ao Brasil. Entre os principais efeitos observados estiveram a seca histórica na Amazônia, com rios atingindo níveis críticos, as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, o aumento de incêndios florestais e alterações no regime de chuvas que afetaram reservatórios de água e geração de energia.
Muitas áreas atingidas ainda enfrentam processos de reconstrução e recuperação ambiental, o que aumenta a preocupação das autoridades diante da possibilidade de um novo evento climático intenso.
Em resposta ao cenário, o governo federal anunciou recentemente a criação de um gabinete de crise para acompanhar semanalmente a evolução do fenômeno. A iniciativa reúne órgãos públicos e instituições de pesquisa para monitorar riscos e coordenar medidas de prevenção e resposta.
Setores estratégicos em alerta
A OMM destaca que o monitoramento antecipado é fundamental para reduzir impactos em áreas sensíveis ao clima, como agricultura, saúde pública, gestão de recursos hídricos e geração de energia.
A agência também prevê que o período de junho a agosto seja marcado por temperaturas acima da média em grande parte do planeta, aumentando a probabilidade de secas em algumas regiões e elevando riscos para a produção agrícola e o abastecimento de água.
Atualmente, 128 países contam com sistemas de alerta precoce para múltiplos riscos climáticos. A meta das Nações Unidas é alcançar cobertura global até 2027, ampliando a capacidade de resposta diante de fenômenos extremos cada vez mais frequentes.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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