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Imagem da notícia Foto: Divulgação

Coluna: A colheita na Horta tricolor

Por Marcos Vinicius Cabral

Atualizado há 4 horas

Não foi apenas uma tarde qualquer. Foi um daqueles raros instantes em que a vida decide tocar fundo — sem avisar, sem pedir licença — e nos atravessa por inteiro.

O sábado, 11 de abril, amanheceu como outro qualquer. Mas dentro de mim, ele carregava um peso diferente. Um peso de saudade. 

Daquelas que não chegam devagar — elas simplesmente se instalam, apertam o peito e fazem a gente lembrar de tudo aquilo que nunca deixou de existir.

E junto dela veio algo ainda mais raro: um sentimento de entrega, de generosidade, de propósito. E, acima de tudo, essa paixão teimosa pelo jornalismo — uma chama que, mesmo em tempos difíceis, insiste em não se apagar dentro de quem nasceu para contar histórias.

E então… aconteceu.

Pela segunda vez, estive diante de Francisco Horta.

Mas dizer “diante” é pouco. 

Porque há pessoas que não ocupam apenas um espaço — elas preenchem o ambiente, atravessam o tempo e permanecem em nós mesmo depois que o encontro termina.

Dessa vez, não era Lili quem estava ali, como no primeiro encontro, mas Regina — cuidadora igualmente dedicada. E, de alguma forma, tudo parecia exatamente como deveria ser.

Horta não fala.

Ele revela.

Cada palavra sua não é resposta — é memória viva. Não é discurso — é experiência. É como se a história não estivesse sendo contada, mas revivida ali, diante de nós, com uma intensidade que não cabe em gravações ou anotações.

Ele não assistiu à história passar.

Ele caminhou de mãos dadas com ela.

E eu vi isso.

Mas não vi sozinho.

Ari, Thales, Fabinho, Neris… cada um, à sua maneira, estava sendo tocado por aquele momento. E foi nos olhos deles que tudo ganhou uma nova dimensão.

Histórias que eu já conhecia renasciam ali, frescas, pulsantes, como se estivessem acontecendo pela primeira vez.

E então… veio o instante que me desmontou.

Quando Horta me chamou de "um grande jornalista e que um texto que o havia emocionado"… não foi apenas um elogio.

Foi um gol.

Mas não qualquer gol.

Foi aquele gol de final de campeonato. O gol que não só decide — consagra. O gol que valida cada dúvida, cada noite mal dormida, cada palavra escrita com o coração na mão.

E naquele momento… eu fui esse gol.

E eu nunca vou esquecer.

Tudo naquela tarde parecia obedecer a um roteiro invisível, como se algo maior estivesse conduzindo cada detalhe. 

Nada fugia do lugar. 

Nada parecia acaso.

Até o gesto final carregava um significado impossível de ignorar.

A camisa do Fluminense — entregue ao Ari — não foi apenas um presente. Foi como o fechar das cortinas de um espetáculo inesquecível. 

Um aplauso silencioso. 

Um ponto final perfeito em uma história que, na verdade, não termina.

E ali, eu entendi.

Histórias como essa não pertencem a quem conta.

Pertencem a quem sente.

E elas estavam vivas.

Quando surgiram as lembranças da mãe, das origens, do filho falecido André Horta, que faleceu em janeiro deste ano, dos caminhos que nunca couberam apenas no futebol… ficou claro que tentar definir Horta seria diminuí-lo às letras do nome.

Porque nunca foi só sobre futebol.

É sobre fé quando não há garantia.

É sobre entrega sem medida.

É sobre humanidade — dessa que anda rara, mas que ainda resiste, silenciosa, em alguns poucos.

Talvez seja isso que ainda me mantém de pé.

Trabalhando. 

Acreditando. 

Insistindo.

Depois, veio a volta.

O rádio ligado, Remo e Vasco, pela décima primeira rodada do Brasileirão, ecoando no carro, a vida seguindo como se nada tivesse acontecido. Mas dentro de mim… tudo já era diferente.

Enquanto Neris dirigia, o silêncio, às vezes, falava mais que qualquer conversa.

E eu percebi: uma parte de mim tinha ficado.

Ficado no Maracanã.

Ficado nos ecos de um Fla-Flu.

Ficado nas memórias de Edinho — que Horta viu nascer, crescer, vencer e se tornar ídolo do Fluminense.

Ficado no apartamento dele, no Parque Guinle, nas Laranjeiras.

E foi no ficar, naquele instante suspenso, que o tempo pareceu parar.

O céu aberto.

As gaivotas cortando o horizonte com uma leveza quase impossível.

Uma beleza simples — e, justamente por isso, profunda.

Daquelas que não se explicam. Apenas se sentem.

E então… veio tudo.

As lembranças guardadas.
Os rostos que o tempo não apagou. As ausências que, de alguma forma, continuam presentes.

Sem aviso.

Sem defesa.

Como se o coração, cansado de silenciar, resolvesse finalmente falar.

E eu senti.

A saudade — inteira.
A memória — viva.

E essa verdade, silenciosa e inevitável de que viver não é deixar para trás.

É seguir em frente carregando, no peito, tudo aquilo que nunca nos deixou.

inclusive essa paixão indomável, eterna, quase inexplicável chamada futebol.

Foto do Jornalista

Rayza Espírito Santo

Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.

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