Ilha Kharg/Foto: Agência Espacial Europeia
EUA avaliam tomar ilha-chave do petróleo iraniano
Declarações de Trump, reforço militar e ameaças de Teerã colocam a Ilha Kharg no centro da disputa por controle energético e estratégico no Golfo Pérsico.
Atualizado há 1 horas
A escalada da guerra entre Estados Unidos e Irã ganhou novos contornos com a possibilidade de uma operação terrestre americana para assumir o controle da Ilha Kharg, principal terminal de exportação de petróleo iraniano. A iniciativa é considerada uma das alternativas do presidente Donald Trump para pressionar Teerã a reabrir o Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.
O impasse diplomático se intensificou no dia 25/03, quando o Irã rejeitou uma proposta de paz apresentada por Washington. Classificado como “excessivo e desconectado da realidade”, o plano previa restrições ao programa nuclear iraniano, limitações ao arsenal de mísseis e a criação de uma zona marítima livre no estreito. Em resposta, Teerã apresentou uma contraproposta que inclui o fim das hostilidades, garantias contra novos ataques, reparações e o reconhecimento de sua soberania sobre a via marítima.
No dia seguinte, 26/03, autoridades iranianas elevaram o tom. O comandante das forças terrestres do Exército, brigadeiro-general Ali Jahanshahi, afirmou que uma guerra em solo seria “mais perigosa, custosa e irreparável para o inimigo”, destacando que o país monitora todos os movimentos nas fronteiras. Na mesma data, a agência Mehr News informou que forças especiais e unidades guerrilheiras estão prontas para reagir com um “golpe doloroso” em caso de escalada.
Também no mesmo dia, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, alertou sobre possíveis tentativas de ocupação de ilhas do país. Ele afirmou que qualquer avanço poderá levar a ataques diretos contra infraestruturas estratégicas e que as movimentações militares dos Estados Unidos estão sob vigilância constante.
O cenário de tensão foi precedido por uma ofensiva direta. Em 13/03, as Forças Armadas dos EUA atacaram a Ilha Kharg, atingindo 90 alvos militares, segundo o Comando Central americano. O próprio Trump declarou que as instalações militares foram “totalmente destruídas”, mas que a infraestrutura petrolífera foi poupada deliberadamente. Pouco depois, em 16/03, o presidente afirmou que poderia atingir oleodutos da ilha “em cinco minutos”, mas evitava fazê-lo para não causar danos duradouros.
A possibilidade de ampliar a ofensiva ganhou força ao longo do mês. No início de março, o site Axios revelou que o governo americano analisava planos para ocupar ou bloquear Kharg. Já no domingo (29/03), em entrevista ao Financial Times, Trump afirmou que pretende “tomar” o petróleo iraniano e admitiu considerar a invasão da ilha, embora tenha reconhecido que isso exigiria permanência prolongada das tropas no local.
Nos últimos dias, a movimentação militar na região se intensificou. Os EUA enviaram duas Unidades Expedicionárias de Fuzileiros Navais, especializadas em desembarques anfíbios, além de cerca de mil soldados da 82ª Divisão Aerotransportada. Com reforços recentes, o contingente americano no Oriente Médio ultrapassa 50 mil militares. Também foram deslocados integrantes das Forças de Operações Especiais, como Rangers e SEALs, enquanto o Pentágono avalia cenários para uma possível campanha terrestre de semanas.
A Ilha Kharg aparece como peça central nesse tabuleiro. Habitada há mais de 2 mil anos e localizada a cerca de 24 a 28 quilômetros da costa iraniana, a ilha tem cerca de 8 quilômetros de extensão e concentra aproximadamente 90% das exportações de petróleo bruto do país. Diariamente, o terminal processa cerca de 1,3 milhão de barris, com capacidade de armazenamento de até 18 milhões de barris.
A estrutura inclui uma rede de oleodutos submarinos conectada a campos como Aboozar, Forouzan e Dorood, além de píeres capazes de receber superpetroleiros. Em razão da proximidade com águas profundas (diferente da costa continental iraniana), embarcações de grande porte conseguem carregar petróleo diretamente na ilha antes de seguir pelo Golfo Pérsico em direção ao Estreito de Ormuz, com a China como principal destino.
Especialistas apontam que um ataque ou ocupação de Kharg teria impacto direto na economia iraniana. Segundo o analista de segurança Mikey Kay, da BBC, atingir a ilha seria como cortar a “veia jugular” econômica do país, afetando inclusive o financiamento da Guarda Revolucionária Islâmica.
Apesar disso, uma operação terrestre envolve riscos significativos. De acordo com a CNN, o Irã reforçou as defesas da ilha com sistemas de mísseis terra-ar e instalação de minas na costa, o que dificultaria um desembarque anfíbio. A proximidade com o território continental também expõe forças invasoras a ataques com mísseis balísticos e drones.
Autoridades americanas reconhecem a possibilidade de alto número de baixas e avaliam se os ganhos estratégicos compensam os riscos. Ainda assim, há crescente especulação de que o controle da ilha poderia não apenas interromper as exportações iranianas, mas também servir como base para operações contra o território continental.
Enquanto a decisão final não é tomada, o aumento das forças militares, as declarações de Trump e as ameaças de Teerã indicam que a Ilha Kharg se consolidou como o principal ponto de tensão do conflito, com potencial de impacto direto no mercado global de energia e na estabilidade do Oriente Médio.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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