Militante Tiago Santineli/Foto: Divulgação
Confronto entre humorista Tiago Santineli e grupo religioso gera investigação em Belo Horizonte
Episódio ocorreu antes de apresentação no Teatro da Maçonaria; versões divergem e Polícia Civil apura possível intolerância religiosa.
Atualizado há 2 dias
O humorista Tiago Santineli, de 33 anos, foi conduzido à delegacia após uma confusão registrada na noite de sábado (21/03), em frente ao Teatro da Maçonaria, no bairro Santa Efigênia, região Centro-Sul de Belo Horizonte (MG). O caso ocorreu pouco antes de uma apresentação do artista, que levava ao palco o espetáculo “Olodumare”, com referências à umbanda. Outras duas pessoas também foram encaminhadas para prestar esclarecimentos.
Antes do início do show, um grupo formado por cristãos realizou uma vigília no local em oposição ao conteúdo da apresentação. Os manifestantes afirmaram exercer o direito à liberdade religiosa, enquanto a equipe do humorista classificou a ação como tentativa de intimidação e possível caso de intolerância religiosa.
Segundo o boletim de ocorrência, houve um momento de tensão quando Santineli chegou ao teatro. O comediante relatou ter sido provocado, chamado de “satanista” e abordado de forma hostil. Já integrantes do grupo religioso afirmaram à polícia que o artista teria se exaltado durante a discussão, iniciando um confronto verbal que evoluiu para empurrões. Uma mulher também relatou ter sido alvo de ofensas.
A Polícia Militar informou que uma mulher teria sofrido intolerância religiosa durante o episódio, o que motivou a condução dos envolvidos à delegacia. Em nota, a Polícia Civil de Minas Gerais confirmou que o humorista foi ouvido na madrugada de domingo (22/03) pela 2ª Central Estadual do Plantão Digital e liberado. O caso será investigado.
Nas redes sociais, Santineli apresentou outra versão. Ele afirmou que manifestantes tentaram interferir na entrada do público, abordando pessoas com orações e objetos religiosos, além de direcionarem ações a um casal gay e a um jovem neurodivergente. O humorista também classificou o episódio como “racismo religioso”, apontando que o alvo do protesto era um espetáculo ligado a uma religião de matriz africana.
A primeira apresentação da noite ocorreu normalmente. A segunda, apesar da confusão, foi mantida pelo comediante que divide o palco com Santineli, Luis Titoin. Santineli afirmou ainda que já havia realizado outros shows na capital mineira sem registros de protestos, indicando que a reação estaria relacionada ao tema abordado desta vez.
Tiago Santineli se tornou conhecido por um estilo de humor ácido e politizado, com críticas frequentes a lideranças religiosas e figuras conservadoras. Apesar das apresentações em tom satírico, não se intitula comediante, mas militante. Natural do Distrito Federal e formado em Direito, ele ganhou projeção na internet com vídeos que misturam sátira, comentários políticos e reações a temas contemporâneos. Filho de pastor e ex-integrante da Assembleia de Deus, costuma utilizar experiências pessoais no meio evangélico como base para seus espetáculos.
Além da atuação no humor, Santineli também está à frente da chamada Igreja Aliança Libertadora Nacional, criada em parceria com o pastor Fillipe Gibran. A iniciativa se apresenta como um movimento que articula fé e ação social, com propostas voltadas à redução de desigualdades, por meio de atividades como capacitação profissional, aulas culturais e projetos comunitários. A organização também defende uma atuação política associada à prática religiosa, com discurso voltado à transformação social.
Entre seus trabalhos estão shows como “Pai da Mentira”, “Antipatriota” e “Anticristo”, que já provocaram reações de setores religiosos e episódios de boicote. Além do stand-up, mantém um canal no YouTube com análises e conteúdos de teor crítico.
O humorista também é investigado em outro caso envolvendo o deputado federal Nikolas Ferreira (PL). Em fevereiro, ele foi intimado pela Polícia Legislativa Federal a prestar esclarecimentos sobre uma publicação nas redes sociais. O inquérito deve ser encaminhado à Justiça Federal após a conclusão.
Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania indicam que o Brasil registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Religiões de matriz africana, como umbanda e candomblé, concentram a maior parte dos casos. A legislação brasileira prevê punição para práticas discriminatórias, equiparando a intolerância religiosa ao crime de racismo.
O episódio em Belo Horizonte ocorre em meio a esse cenário e deve ser analisado pelas autoridades para esclarecer responsabilidades e eventuais crimes cometidos durante o confronto.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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