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Coluna: A Ousadia de Fracassar - Âmago
Texto de Paulo Martare.
Atualizado há 141 dias
Na ousadia de fracassar, tenho pensado sobre essa vontade que às vezes dá de simplesmente fugir dos problemas.
Muita gente sonha em largar tudo, mudar de cidade, sumir do mapa — como se os problemas ficassem para trás. Mas é ilusão: o que nos persegue, na maioria das vezes, viaja conosco.
Isso me faz lembrar o filme O Show de Truman (1998), dirigido por Peter Weir e escrito por Andrew Niccol.
A história é uma metáfora perfeita para quem vive fugindo da realidade — e, ao fazer isso, foge de si.
Albert Camus dizia algo parecido: mesmo sem um “sentido universal”, somos totalmente responsáveis por dar sentido à própria vida.
Lembrei também da música Casa na Montanha, de Leoni, que fala exatamente sobre isso — sobre a vontade de sumir.
De desligar o celular, ignorar mensagens, construir um refúgio no alto da montanha, longe do barulho e das expectativas dos outros.
A gente pensa: “Lá, ninguém me alcança.”
Mas Leoni nos lembra: quando fugimos de tudo, levamos conosco o que mais pesa — a própria mente.
“Eu fiz bem lá no alto da montanha
Mais alta, mais distante das cidades
A casa-esconderijo das saudades.
Pensei: nenhum problema mais me alcança.”
É bonito imaginar um refúgio onde nada nos atinge.
Mas esquecemos que o inimigo que mais nos fere não bate à porta — ele mora conosco.
E quando o silêncio chega, ele fala.
Fala dos medos que evitamos, das culpas que empurramos para debaixo do tapete, dos amores que não soubemos cuidar, das palavras que dissemos — ou calamos — na hora errada.
No alto da montanha, tudo isso ecoa e devolve o que tentamos esconder. E o que chamamos de “paz” às vezes é só fuga disfarçada.
E a música termina com um verso que é quase uma confissão:
“Mas, eu só percebi quando era tarde
Depois que eu acionei os meus alarmes,
Depois de pôr a tranca no portão,
Que eu me tranquei sozinho com o inimigo
Que vai passar a vida aqui comigo
Vivendo do meu medo e solidão.”
É duro perceber isso.
Mas talvez esse seja o primeiro passo para a verdadeira liberdade: parar de correr de si mesmo.
Descer da montanha.
Olhar o inimigo nos olhos e dizer: “Eu te reconheço. Agora, vamos conversar.”
Porque só quem enfrenta o que carrega por dentro descobre que o abrigo não está no alto de um morro — mas no encontro com a própria verdade.
Coluna de Paulo Martare, que é professor de artes visuais e profissional de artes e letras.
Siga o trabalho dele nas redes sociais @paulomartare .

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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