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PF prende deputado eleito e ex-chefe da Polícia Civil em operação no RJ

Investigação aponta movimentação de R$ 7,6 bilhões em seis anos e suspeita de participação de agentes públicos em esquema de lavagem de dinheiro.

Atualizado há 1 horas

A Polícia Federal (PF) prendeu, nesta quinta-feira (15/10), o deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil) e o delegado Marcus Vinicius Amim Fernandes, ex-secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, durante a oitava fase da Operação Unha e Carne. A ação investiga uma organização criminosa armada suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio para lavar dinheiro, com possível participação de agentes públicos e articulação político-institucional.

Ao todo, seis pessoas foram presas preventivamente, e agentes cumpriram 16 mandados de busca e apreensão em sete municípios: Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo. Os mandados foram expedidos por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Além de Canella e Amim, foram presos os inspetores da Polícia Civil Christiano Gaspar Fernandes, Giovanni Gaspar Fernandes, José Carlos Alves de Souza Júnior e Pablo Jukia Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo. Christiano também ocupa o cargo de secretário municipal de Ordem Urbana de Belford Roxo. O delegado Glaucio Paz da Silva foi alvo de buscas.

Esquema teria movimentado R$ 7,6 bilhões

De acordo com a Polícia Federal, as investigações identificaram movimentações financeiras superiores a R$ 7,6 bilhões ao longo de seis anos. O valor consta em um Relatório de Inteligência Financeira elaborado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e encaminhado à PF, que deu suporte às apurações.

A Justiça determinou o sequestro de bens e valores dos investigados, além da suspensão das atividades econômicas de 112 empresas suspeitas de ligação com o esquema. Desse total, 96 são postos de combustíveis apontados como instrumentos para ocultar a origem ilícita dos recursos e inserir os valores no circuito econômico formal.

Os investigados poderão responder por organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel, entre outros crimes que possam ser identificados no decorrer das apurações. A responsabilização dependerá da participação atribuída a cada suspeito e das provas reunidas.

A Corregedoria-Geral da Polícia Civil acompanhou o cumprimento dos mandados contra os agentes da corporação investigados.

Da esquerda para a direita: Márcio Canella e Marcus Amim/Fotos: Reprodução
Da esquerda para a direita: Márcio Canella e Marcus Amim/Fotos: Reprodução

Márcio Canella foi o segundo deputado estadual mais votado

Márcio Correia de Oliveira, conhecido como Márcio Canella, foi eleito deputado estadual nas eleições de 2026 com 197.178 votos, o segundo maior número entre os candidatos à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

Antes da eleição, ele comandou a Prefeitura de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, após vencer a disputa municipal de 2024. Canella renunciou ao cargo no início de 2026, inicialmente com a intenção de disputar uma vaga no Senado. Ele também exerceu dois mandatos anteriores como deputado estadual e ocupou funções públicas no município, incluindo os cargos de vereador, vice-prefeito e secretário municipal da Casa Civil.

O parlamentar já havia sido alvo da sexta fase da Operação Unha e Carne, em 7 de julho. Na ocasião, agentes federais cumpriram mandados de busca e apreensão relacionados à investigação sobre a rede de postos de combustíveis. Canella acabou preso em flagrante depois que os policiais encontraram um fuzil em seu veículo. Ele afirmou que a arma não lhe pertencia.

O ministro Alexandre de Moraes determinou a soltura do político dias depois, com a imposição de medidas cautelares, posteriormente revogadas. Na oitava fase, Canella voltou a ser alvo de um mandado de prisão, desta vez preventiva, no âmbito das investigações sobre a suposta organização criminosa.

Segundo informações divulgadas sobre o caso, os investigadores apontam o deputado eleito como um dos articuladores do grupo. A suspeita ainda será apurada no curso do processo.

Ao comentar a prisão, Canella declarou: “Confio em Deus e na Justiça e tenho certeza de que tudo será esclarecido”. A defesa informou que não se pronunciaria naquele momento por ainda não ter acesso à decisão judicial que determinou a medida.

Marcus Amim ocupou cargos estratégicos na segurança pública

Preso na mesma operação, Marcus Vinicius Amim Fernandes ingressou na Polícia Civil em 2002, após se formar em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Ao longo da carreira, comandou unidades como a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), a Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos (Desarme) e a 27ª DP, em Vicente de Carvalho.

Em junho de 2023, Amim assumiu a presidência do Departamento de Trânsito do Estado do Rio de Janeiro (Detran-RJ). Quatro meses depois, foi nomeado secretário estadual de Polícia Civil pelo então governador Cláudio Castro (PL), após uma alteração na Lei Orgânica da corporação que flexibilizou os critérios para a escolha do titular da pasta.

A nomeação ocorreu após articulação política do então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (PL). Amim permaneceu à frente da Polícia Civil por cerca de dez meses, até setembro de 2024, quando foi substituído pelo delegado Felipe Curi. Posteriormente, assumiu a coordenação do Departamento de Segurança da Alerj, mas deixou a função em dezembro de 2025.

O delegado já havia sido alvo de mandados de busca e apreensão na sexta fase da Operação Unha e Carne, em julho deste ano. Desde então, também passou a ser investigado pela Corregedoria da Polícia Civil.

A defesa de Amim, representada pelo advogado Thiago Minagé, informou que aguardava acesso ao cliente e à íntegra da decisão judicial para se manifestar. Em nota, a Polícia Civil afirmou que a Corregedoria-Geral participou da operação em apoio à PF e declarou que apura possíveis desvios de conduta, colaborando com os órgãos de controle.

Operação começou com investigação sobre vazamento de informações

Deflagrada inicialmente em dezembro de 2025, a Operação Unha e Carne começou com apurações sobre o suposto vazamento de informações sigilosas de uma ação policial contra o Comando Vermelho (CV). Segundo a Polícia Federal, dados relacionados à Operação Zargun, realizada em setembro daquele ano, teriam sido compartilhados indevidamente, comprometendo diligências e beneficiando pessoas investigadas por ligações com a facção.

A primeira fase teve como alvo Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj, suspeito de repassar informações sigilosas ao ex-deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, conhecido como TH Joias. A investigação também alcançou o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, preso preventivamente na segunda fase, em dezembro de 2025, sob suspeita de participação no vazamento.

Em março de 2026, Bacellar foi novamente preso após a cassação de seu mandato e o avanço das apurações. A Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou denúncia contra ele e outros investigados por suposta obstrução de investigações relacionadas ao crime organizado.

As etapas seguintes ampliaram o alcance da operação. Em maio, a quarta fase levou à prisão do deputado estadual Thiago Rangel (Avante), investigado por suspeitas de fraudes em procedimentos de compras e contratação de serviços vinculados à Secretaria Estadual de Educação. Em julho, a quinta fase incluiu apurações sobre suspeitas de ligações entre agentes políticos e a chamada máfia do cigarro.

Ainda em julho, a sexta fase passou a investigar diretamente a rede de postos de combustíveis suspeita de movimentar R$ 7,6 bilhões. Canella e Amim estavam entre os alvos das buscas. Em setembro, a sétima etapa resultou na prisão em flagrante do vereador do Rio de Janeiro Jorge Canella por suspeita de posse irregular de armas de fogo de uso restrito. Ele não é parente de Márcio Canella, embora utilize o mesmo sobrenome.

Canella usou um guarda-chuva para esconder o rosto ao ser conduzido por policiais federais/Foto: Allan Cavalcante
Canella usou um guarda-chuva para esconder o rosto ao ser conduzido por policiais federais/Foto: Allan Cavalcante

Investigação está vinculada à ADPF das Favelas

A oitava fase integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela Polícia Federal para investigar e desarticular organizações criminosas que atuam no estado do Rio de Janeiro.

A iniciativa está relacionada às diretrizes estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como ADPF das Favelas. Entre as medidas determinadas no processo estão providências voltadas à investigação das relações entre agentes públicos e grupos criminosos.

A atuação da força-tarefa também foi tema de uma reunião realizada em 6 de outubro entre a direção-geral da Polícia Federal e o ministro Alexandre de Moraes, no STF.

As investigações continuam para esclarecer a estrutura financeira do grupo, identificar a participação de cada suspeito e apurar possíveis conexões entre empresas, agentes públicos e organizações criminosas. Até o momento, as suspeitas apresentadas pela PF não equivalem a uma condenação judicial.

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Rayza Espírito Santo

Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.

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