Menu

Imagem da notícia Foto: Divulgação

Coluna: A Ousadia de Fracassar – Esperando o Quê?

Texto de Paulo Martare.

Atualizado há 6 horas

Na ousadia de fracassar, eu fui bater um papo com a minha amiga Janina Pereira, autora e palhaça, e conversamos sobre a peça Esperando Godot, e percebemos que se pararmos para ouvir o ruído de fundo das nossas vidas, há uma pergunta que bate como goteira no teto: afinal de contas, estamos esperando o quê? O que é que nós tanto esperamos? Pelo que, exatamente, você está esperando agora?

Essa angústia não é nova. Em 1953, Samuel Beckett chocou o mundo ao colocar dois vagabundos, Vladimir e Estragon, na beira de uma estrada deserta, ao lado de uma árvore seca. Eles não fazem nada. Não vão a lugar nenhum. Apenas esperam por um sujeito misterioso chamado Godot. O problema é que Godot nunca chega. E, enquanto esperam, a vida deles escorre pelo ralo do tempo. O Teatro do Absurdo de Beckett não era uma ficção exagerada; era um espelho incrivelmente realista da nossa própria paralisia cotidiana.

Nós somos Vladimir e Estragon. Passamos a vida adiando o início de tudo porque fomos condicionados a esperar pelo "momento certo". Esperamos o dinheiro ideal, o sinal verde do destino, a estabilidade perfeita, o amor sem defeitos. Criamos a ilusão de que a vida só começa depois que uma série de condições abstratas sejam cumpridas. Mas a verdade nua e crua é que o momento certo é uma ficção que inventamos para não termos que lidar com o medo de falhar.

Essa mania de terceirizar o começo para o futuro foi o que o filósofo estoico Sêneca criticou duramente em suas cartas. Ele dizia que enquanto estamos ocupados esperando pelo amanhã, perdemos o hoje. Para Sêneca, a maior tolice humana é planejar uma vida longa e adiar as coisas boas para os cinquenta ou sessenta anos, como se o tempo estivesse sob nosso controle. A morte não avisa quando vai entrar em cena. Esperar para começar a viver é o jeito mais seguro de morrer inédito.

A música brasileira captou esse vazio existencial da sala de espera com uma precisão cirúrgica. Em Paciência, Lenine canta algo que parece um diálogo saído direto da peça de Beckett: 
"Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma 
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma 
A vida não para".
O mundo tem pressa, mas a gente se tranca no casulo da expectativa. Ficamos parados na plataforma vendo o trem passar, repetindo mentalmente que o próximo vagão será melhor.

Outro que dissecou essa paralisia foi Raul Seixas na visceral Ouro de Tolo. Raul ironiza o sujeito que conseguiu tudo o que o manual do sistema pedia — o carro, o emprego, o apartamento — e mesmo assim se pega "sentado no trono de um apartamento / com a boca escancarada cheia de dentes / esperando a morte chegar". É a constatação dolorosa de que passamos tanto tempo esperando alcançar algo que, quando alcançamos, percebemos que o que importava se perdeu na estrada. A espera esvazia o sentido.

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard explicava que esse comportamento nasce do desespero de não querermos ser nós mesmos. Escolher agir exige coragem, envolve o risco do erro e o peso da responsabilidade. É muito mais confortável — e seguro para o ego — se esconder na desculpa de que "as circunstâncias ainda não são favoráveis". Chamamos nossa covardia de prudência e continuamos sentados na beira da estrada de Beckett, olhando para o horizonte.

A grande virada da "ousadia de fracassar" acontece quando a gente percebe o maior segredo do Teatro do Absurdo: Godot não vai chegar. Porque Godot não é uma pessoa; ele é o símbolo de todas as desculpas que inventamos para não assumir o picadeiro da nossa própria história.

Não existe ensaio geral para a existência. Enquanto você espera o cenário perfeito para começar aquele projeto, para pedir perdão, para mudar de carreira ou para se declarar a alguém, o tempo vai roendo as suas possibilidades. Saltar no trapézio sem rede de proteção assusta, claro. Mas continuar olhando para o trapézio lá de baixo, sentadinho na plateia até a lona do circo cair, é o único fracasso realmente insuportável. Pois como disse Cazuza: “O tempo não para”.

Como bem avisou Geraldo Vandré em um dos refrões mais humanos da nossa história: "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Pare de dar corda para o relógio de Godot. O chão é o agora, o risco é o percurso e a vida acontece na ousadia do primeiro passo.

Sobre o autor

Paulo Martare é professor de artes visuais e profissional de artes e letras. Acompanhe seu trabalho no @paulomartare .

Foto do Jornalista

Rayza Espírito Santo

Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.

Comentários (0)

Veja também

Mais

lidas
  1. 1
    TSE determina remoção de posts sobre suposto plano de Flávio Bolsonaro
  2. 2
    Abin eleva a nível crítico risco de interferência dos EUA nas eleições
  3. 3
    Expo Rural de Maricá recebe show de Gustavo Mioto no Espraiado
  4. 4
    Maricá inicia obras de novo Parque de Exposições Agropecuárias
  5. 5
    Maricá entrega primeiros óculos com I.A. a pessoas com deficiência visual
Mais do Gazeta