Foto: Antonio Cruz
Abin eleva a nível crítico risco de interferência dos EUA nas eleições
Documento reservado enviado ao TSE e ao governo cita medidas de Washington e possível atuação de setores políticos brasileiros.
Atualizado há 1 horas
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elevou para “nível crítico” a avaliação sobre o risco de influência e interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. A informação consta de um relatório reservado encaminhado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), à Polícia Federal (PF) e ao governo federal no fim de agosto, segundo as informações fornecidas e a reportagem da Agência Pública mencionada no material.
O documento cita análises produzidas desde novembro de 2025 e documentos do governo de Donald Trump publicados entre novembro de 2025 e maio de 2026. De acordo com a Abin, entre os objetivos atribuídos à política estadunidense estão a redução da influência de potências rivais na América Latina e o controle, direto ou indireto, de ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas da região por interesses governamentais ou privados dos Estados Unidos.
A agência avalia ainda uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil” e uma “intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA”. O relatório classifica a hegemonia estadunidense na América Latina como uma prioridade do segundo governo Trump e afirma que medidas adotadas desde maio indicariam aumento da pressão sobre o país.
Um dos episódios citados é a decisão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, em 01/07, de sancionar dois cidadãos e três empresas brasileiras por supostos vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Para a Abin, a medida demonstra uma atuação que alcança relações financeiras, reputação empresarial, acesso ao dólar, operações internacionais e exposição de terceiros a possíveis sanções.
Segundo a agência, o episódio faz parte de um movimento gradual e combinado de pressão externa sobre o Brasil. A avaliação integra um conjunto de análises produzidas pela inteligência brasileira diante do aumento das tensões entre Brasília e Washington.
Monitoramento de grupos políticos
De acordo com a Agência Pública, documentos internos da Abin passaram a acompanhar também discursos de integrantes da direita radical brasileira classificados pela agência como possíveis “facilitadores” de uma eventual ofensiva estadunidense.
A apuração afirma que o monitoramento inclui declarações de políticos e influenciadores que poderiam defender ou estimular ações de interferência externa ou contribuir para a obtenção de apoio político e popular a iniciativas desse tipo.
Uma fonte da Abin ouvida sob anonimato afirmou à reportagem que o cenário atual seria diferente daquele observado em eleições anteriores. Segundo essa fonte, a atenção da inteligência passou a se concentrar na possibilidade de interferência externa e na suposta preferência do governo dos Estados Unidos pelo campo opositor.
A avaliação mencionada pela fonte também considera a possibilidade de atuação de setores políticos brasileiros como facilitadores de interesses estadunidenses. A declaração, contudo, não constitui uma conclusão pública da Abin sobre a atuação ou eventual responsabilidade de indivíduos específicos.
Interesses econômicos e minerais
A análise da inteligência brasileira também envolveria interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos no Brasil. Segundo fontes ouvidas pela Pública, a exploração de minerais considerados críticos, entre eles as terras raras, aparece entre os fatores avaliados.
O tema ganhou espaço na política estadunidense durante o governo Trump, que adotou medidas voltadas à ampliação da produção e à redução da dependência de fornecedores estrangeiros.
A preocupação com interesses estratégicos ocorre paralelamente à avaliação sobre possíveis ações de influência política, em um cenário no qual questões econômicas, comerciais e de segurança passaram a fazer parte das tensões entre os dois países.
Reunião sobre urnas eletrônicas
Outro episódio citado pela Agência Pública envolve a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília. Representantes diplomáticos estadunidenses procuraram o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, para uma reunião com enviados do Departamento de Estado.
Os representantes Riley Bernes e Samuel Samson teriam pretendido discutir questões relacionadas às urnas eletrônicas. Ainda segundo a publicação, os vistos solicitados pelos dois enviados foram negados pelo governo brasileiro.
A escolha do novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil também ocorre nesse ambiente de tensão. Daniel Perez, indicado por Trump, teve o nome aprovado pelo Senado estadunidense em agosto, mas ainda depende do agrément do governo brasileiro para assumir o posto.
Pressão e repercussão eleitoral
A discussão sobre possível interferência externa ganhou dimensão eleitoral nas últimas semanas. Segundo as informações apresentadas, a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) e o TSE para pedir apuração sobre possíveis interferências dos Estados Unidos nas eleições. As alegações permanecem sob investigação e são objeto de disputa política.
O assunto também chegou ao Congresso dos Estados Unidos. Segundo a Folha de S.Paulo, parlamentares estadunidenses, entre eles Bernie Sanders, manifestaram preocupação com possíveis tentativas de interferência do governo Trump no processo eleitoral brasileiro.
A tensão entre os dois países também esteve presente no discurso de Lula na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 22 de setembro. Sem citar diretamente os Estados Unidos, o presidente declarou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, em uma manifestação sobre soberania nacional.
As análises da Abin ocorrem, portanto, em meio à combinação de medidas econômicas, movimentações diplomáticas e disputas políticas entre Brasil e Estados Unidos. As informações sobre possíveis ações de interferência estrangeira permanecem sob análise das instituições brasileiras, enquanto as alegações envolvendo agentes estrangeiros ou setores políticos brasileiros não equivalem, até o momento, a uma conclusão judicial sobre responsabilidade ou ilegalidade.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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