Foto: Reprodução
UFPE perde pesquisas de até 20 anos após incêndio que destruiu laboratórios
Relatos de supostas ameaças a estudantes levantaram suspeitas nas redes sociais, mas hipótese de incêndio criminoso ainda não foi confirmada.
Atualizado há 1 horas
Um incêndio de grandes proporções destruiu laboratórios da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, na noite de quarta-feira (07/10), provocando prejuízos estimados em R$ 100 milhões e comprometendo pesquisas científicas desenvolvidas ao longo de décadas. O fogo atingiu o prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo e mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros durante nove horas. Não houve vítimas.
As chamas começaram por volta das 20h e só foram controladas às 5h de quinta-feira (08/10). Às 9h, os bombeiros precisaram retornar ao local para combater novos focos. O edifício abrigava laboratórios de áreas como farmácia, genética, informática, tecnologia e educação física, além de equipamentos, amostras e registros utilizados em diferentes linhas de pesquisa.
O reitor da UFPE, Alfredo Gomes, estima que os materiais e equipamentos armazenados no primeiro andar representem perdas de aproximadamente R$ 100 milhões. O levantamento definitivo ainda depende de avaliações com os responsáveis pelos laboratórios. Os danos aos dois laboratórios de biossegurança de nível 3, localizados no térreo, também precisam ser dimensionados.
Pesquisas de décadas foram perdidas
O incêndio comprometeu trabalhos científicos que envolviam estudantes, professores e pesquisadores de diferentes áreas. Entre os materiais destruídos estavam amostras e estudos relacionados a doenças como Covid-19, câncer e autismo, além de pesquisas sobre transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).
A estudante de Nutrição Letícia Porfírio relatou a dimensão das perdas para a comunidade acadêmica: “Tinha amostra de muita coisa. Tinha amostra de Covid ainda, de estudo sobre Covid, sobre autismo, sobre câncer, sobre TDAH, e muita gente perdeu tudo”.
Segundo informações divulgadas pela universidade, o edifício armazenava dados científicos acumulados por até 20 anos. Entre os trabalhos afetados estavam dissertações e teses em andamento, além de pesquisas que dependiam de amostras e equipamentos específicos.
O reitor afirmou que a instituição precisa encontrar alternativas para evitar a interrupção dos estudos: “Nós temos aproximadamente 200 dissertações e teses em andamento aqui nos diversos laboratórios e precisamos evitar com que essas pesquisas parem”.
O número de trabalhos em andamento informado por Gomes considera diferentes laboratórios da universidade. Levantamentos preliminares também apontaram que entre 80 e 100 estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado foram diretamente afetados pelo incêndio.
A professora e pesquisadora Maira Galdino descreveu a dificuldade de perder materiais desenvolvidos após anos de dedicação: “É trabalho árduo diário, de mais de dez horas de trabalho por dia, ao serviço público, à pesquisa e, realmente, a gente vai ter que reconstruir tudo. Muito difícil”.
A professora Melissa Celestino também lamentou os danos, mas demonstrou esperança na retomada das atividades: “Perdeu tudo. Mas vai dar tudo certo. A gente vai se reerguer”.
PF investiga causas e não descarta linhas de apuração
A Polícia Federal (PF) instaurou um inquérito para investigar as circunstâncias do incêndio e determinar como o fogo começou. Até o momento, não há confirmação de que o episódio tenha sido criminoso.
Na manhã de quinta-feira (08/10), policiais federais compareceram à universidade, mas não conseguiram entrar no prédio devido à alta temperatura e às condições de segurança. Para obter imagens do interior, os peritos utilizaram um drone e um robô.
O acesso ao edifício também foi condicionado à avaliação e à adoção de medidas para garantir a estabilidade da estrutura. Há risco de desabamento do teto, o que impede a realização segura de uma perícia interna completa até que sejam providenciadas as intervenções necessárias.
O delegado regional executivo da PF, Rodrigo Bastos, afirmou que a prioridade é identificar a origem do fogo e reconstituir a sequência dos acontecimentos.: “A investigação tem que ser ampla. Nesse momento a ênfase é identificar a origem do incêndio e reconstituir a dinâmica dos fatos aqui no local na data de ontem. Isso é o mais importante nesse momento para não perder o princípio da oportunidade”.
O reitor Alfredo Gomes afirmou que a universidade não dispõe, até o momento, de elementos suficientes para apontar uma causa. Segundo ele, é necessário aguardar os resultados dos exames periciais antes de estabelecer conclusões.
Nas redes sociais, relatos de supostas ameaças contra estudantes levantaram suspeitas sobre a possibilidade de ação intencional. O deputado federal eleito Jones Manoel (PSOL) afirmou ter recebido informações de que alunos teriam sido ameaçados horas antes do incêndio, inclusive com mensagens que mencionariam a possibilidade de “explodir o departamento”.
A autenticidade dos relatos e uma eventual ligação com o incêndio não foram confirmadas pelas autoridades. Portanto, a hipótese de crime permanece sob investigação, sem comprovação até o momento.
Terceiro incêndio em oito dias na universidade
O incêndio de 07/10 foi o terceiro registrado em prédios da UFPE em um intervalo de oito dias. Em 30/09, o Departamento de Física foi atingido pelo fogo. No domingo (04/10), outro incêndio ocorreu em um laboratório do Centro de Biociências, identificado pela universidade como o Laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal.
Segundo a instituição, as causas dos dois episódios anteriores já foram identificadas. Até o momento, porém, não há confirmação de uma relação entre os três incêndios.
O edifício atingido pelas chamas era antigo e já havia funcionado como restaurante universitário antes de ser adaptado para receber laboratórios. De acordo com o reitor, o espaço passava por manutenção e revisões regulares, e a administração não tinha registros anteriores de ocorrências semelhantes naquele prédio.
A presença de materiais inflamáveis utilizados em pesquisas pode ter contribuído para a rápida propagação das chamas, conforme informações divulgadas pela universidade. Essa condição, no entanto, não determina a origem do incêndio, que depende dos resultados da investigação.
Como o prédio fica em uma área isolada do campus, o fogo não alcançou outras unidades. Por isso, as aulas e as demais atividades acadêmicas da universidade foram mantidas.
AGU cria força-tarefa para apoiar a UFPE
A Advocacia-Geral da União (AGU) anunciou, na sexta-feira (09/10), a criação de uma força-tarefa para prestar suporte jurídico à UFPE após a destruição dos laboratórios. O grupo será conduzido pelo gabinete da Procuradoria-Geral Federal e reunirá integrantes das áreas de consultoria jurídica, contencioso, cobrança e recuperação de créditos, além de representantes da Procuradoria Federal junto à universidade.
A equipe deverá orientar a instituição sobre as medidas legais necessárias para lidar com os prejuízos, contribuir para a recomposição da infraestrutura científica e acompanhar as investigações criminais.
A AGU também informou que fará o levantamento e a documentação dos danos ao patrimônio público. Caso sejam identificados responsáveis pelo incêndio, os registros poderão subsidiar medidas judiciais para buscar o ressarcimento dos recursos públicos.
O Ministério da Educação e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação também ofereceram apoio à universidade. Na quinta-feira (08/10), o ministro da Educação, Leonardo Barchini, esteve no campus acompanhado do reitor.
“Estamos trabalhando para que minimamente a gente possa superar esse momento de muita dor, que a gente sabe, todos aqueles que são pesquisadores sabem da dor que é perder o material de pesquisa como esse”, afirmou Barchini.
Além dos prejuízos materiais e científicos, a universidade informou que disponibilizará serviços de apoio psicológico e de outras áreas aos estudantes e profissionais afetados.
Universidade busca alternativas para retomar pesquisas
A prioridade da UFPE agora é avaliar os danos estruturais, identificar o que pode ser recuperado e encontrar espaços para acomodar as equipes e os equipamentos que permaneceram fora do edifício atingido.
Parte dos materiais havia sido transferida antes do incêndio, porque a universidade preparava outra estrutura para receber alguns laboratórios. Equipamentos considerados essenciais, porém, continuaram no prédio destruído.
A retomada das atividades dependerá da avaliação das condições de segurança, do levantamento das perdas e da disponibilidade de infraestrutura para dar continuidade aos projetos. Para pesquisadores e estudantes, o desafio é reconstruir parte do trabalho científico interrompido pelo fogo, enquanto a investigação busca esclarecer o que provocou o incêndio.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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