Crise no Paraguai ameaça planos de brasileiros que migraram após eleições
O bloqueio de contas no Ueno Bank atingiu milhões de clientes e desencadeou uma crise política que levou o presidente Santiago Peña a anunciar sua renúncia.
Atualizado há 2 horas
A crise bancária e política que atingiu o Paraguai colocou em xeque a imagem do país como destino para brasileiros que, especialmente após as eleições presidenciais de 2022, passaram a buscar no país vizinho uma alternativa econômica e política. O colapso do Ueno Bank, que deixou milhões de clientes sem acesso às próprias contas, provocou uma turbulência que culminou, nesta quinta-feira (05/11), no anúncio de renúncia do presidente Santiago Peña. O Congresso, no entanto, rejeitou a saída e decidiu dar prosseguimento ao processo de impeachment.
O episódio ocorre em meio ao aumento da migração brasileira para o Paraguai em 2026, movimento que ganhou visibilidade após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições brasileiras. Parte dos migrantes é formada por empresários, investidores e profissionais que apontam a carga tributária, o custo de vida e a insatisfação com o cenário político nacional como motivos para a mudança.
A instabilidade paraguaia, porém, expõe os riscos de uma decisão baseada também em expectativas políticas. Embora alguns brasileiros afirmem que a crise não alterou seus planos, outros enfrentam dificuldades imediatas para movimentar recursos e manter negócios no país.
Renúncia de Peña não encerra crise política
A crise se agravou na manhã desta quinta-feira, quando o Congresso paraguaio iniciou os procedimentos para analisar pedidos de impeachment contra Peña e o vice-presidente, Pedro Alliana. Todas as bancadas da Câmara dos Deputados anunciaram apoio ao afastamento do presidente, em uma articulação que ganhou força após a retirada de apoio de Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado e considerado o principal mentor político de Peña.
Horas depois, o presidente apresentou uma carta de renúncia em vídeo. Na declaração, pediu desculpas aos correntistas prejudicados pelo bloqueio das contas e afirmou que tomou a decisão em nome da estabilidade do país: “Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim”.
A renúncia, entretanto, não foi aceita pela Câmara, que decidiu por unanimidade dar seguimento ao processo de impeachment. A análise deverá continuar em sessão prevista para esta sexta-feira (06/11).
Já o pedido de afastamento do vice-presidente Pedro Alliana foi rejeitado. Com a decisão, ele fica habilitado a assumir a Presidência caso Peña seja efetivamente afastado.
A Constituição paraguaia atribui ao Congresso a prerrogativa de aceitar ou rejeitar a renúncia do presidente e do vice-presidente. A disputa também envolve os efeitos jurídicos da saída de Peña: ao deixar o cargo, ex-presidentes paraguaios passam a ocupar uma cadeira de senador vitalício.
Segundo o comentarista da GloboNews e especialista em América Latina Ariel Palacios, Peña teria buscado preservar o foro privilegiado ao anunciar a renúncia. A oposição, por sua vez, argumenta que a aceitação da saída poderia dificultar a responsabilização do presidente pelas suspeitas relacionadas à crise bancária.
A Constituição estabelece que o ex-presidente perde a prerrogativa de senador vitalício caso seja submetido a julgamento político e considerado culpado.
Crise no Ueno Bank atingiu milhões de correntistas
A turbulência política tem origem no colapso do Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras digitais do Paraguai. O banco foi submetido à intervenção do Banco Central na terça-feira (03/11), após a autoridade monetária identificar insuficiência de recursos para cobrir suas obrigações.
A instituição, pertencente ao Grupo Vázquez, tinha cerca de 3 milhões de clientes, o equivalente a aproximadamente 60% da população adulta do país, segundo dados do próprio banco. O problema de solvência estaria relacionado a empréstimos concedidos a empresas vinculadas à instituição.
Peña foi acionista do grupo controlador do Ueno até março de 2025. A ligação do presidente com a instituição passou a ser um dos principais pontos de questionamento da oposição, que acusa o governo e o Banco Central de terem sido coniventes com irregularidades.
Durante a sessão que antecedeu a apresentação do pedido de impeachment, a deputada de oposição Rocío Vallejo criticou a atuação do presidente: “Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente. O senhor é a origem desse monstro que criou”.
Além das contas de clientes particulares, o banco administrava recursos públicos, incluindo depósitos do Instituto de Previdência Social. Reportagens da imprensa paraguaia apontam que os recursos públicos mantidos na instituição somavam aproximadamente US$ 850 milhões, valor próximo de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.
A oposição também acusa Peña de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários. O Banco Central é suspeito de ter encoberto irregularidades.
Executivos do Ueno se entregaram às autoridades após a emissão de mandados de prisão pela Procuradoria, que também acusou formalmente 27 pessoas ligadas ao banco. A Justiça determinou o bloqueio dos bens dos investigados.
Brasileiros enfrentam bloqueio de recursos e dificuldades para manter negócios
A crise atingiu diretamente brasileiros que vivem no Paraguai e utilizavam o Ueno Bank para receber pagamentos, guardar economias e movimentar pequenos negócios. É o caso de Renata de Brito, de 44 anos, que mora em Hernandarias, cidade próxima à fronteira com o Brasil. A brasileira mantém uma lanchonete e utilizava a instituição para receber pagamentos dos clientes por meio de uma maquininha. Ela percebeu o problema na terça-feira, quando tentou acessar o aplicativo e constatou que a conta estava bloqueada: “Me falaram que estava bloqueado quando tentaram fazer um pagamento para mim. Quando fui ver, não acessava mais nada. Estou muito preocupada pelo meu negócio”.
Renata havia se mudado para o Paraguai em busca de uma vida mais tranquila, depois de ser afetada pelas enchentes no Rio Grande do Sul. A facilidade para abrir uma conta e a ampla presença da instituição no país foram fatores que pesaram na escolha. A brasileira afirma que já havia quitado as contas com vencimento em novembro, mas teme não conseguir recuperar o dinheiro até o fim do mês, quando precisa pagar uma parcela de um apartamento que comprou. O dinheiro que ainda mantém em espécie é destinado ao funcionamento da lanchonete. Como alternativa, ela considera utilizar recursos que recebe no Brasil pela venda de um sítio: “Mas, sinceramente, não sei se a renúncia do presidente vai ajudar nessa resolução”.
O economista Alexandre Barros da Costa, pesquisador da economia paraguaia na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e na Universidade Federal do Paraná (UFPR), estima que a crise possa atingir dezenas de milhares de brasileiros residentes no país. Segundo ele, o Ueno atraiu imigrantes por oferecer um processo simplificado de abertura de contas, o que fez da instituição uma opção frequente entre estudantes de medicina, pequenos comerciantes, produtores rurais e investidores.
A interrupção dos serviços, portanto, pode comprometer despesas cotidianas, como aluguel, alimentação e mensalidades, além de dificultar a operação de empresas que dependem dos pagamentos eletrônicos.
Fundo garantidor prevê ressarcimento, mas recuperação pode ser gradual
O Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos que protege valores de até 228,3 milhões de guaranis por cliente e por instituição financeira, o equivalente a aproximadamente R$ 203,5 mil, conforme os valores informados.
O limite considera o conjunto dos depósitos de uma pessoa física ou jurídica no mesmo banco, e não cada conta individualmente.
Nesta quinta-feira, o Banco Central anunciou o início da primeira etapa de devolução dos recursos. Inicialmente, serão contemplados clientes com depósitos de até 10 milhões de guaranis, cerca de R$ 8,9 mil, que não tenham dívidas com o Ueno Bank e possuam uma conta habilitada em outra instituição financeira paraguaia.
Os próximos grupos de correntistas deverão ser anunciados conforme o andamento do processo. Para valores que ultrapassam o limite de cobertura do fundo, a recuperação dependerá dos mecanismos legais adotados durante a intervenção.
A crise também provocou uma corrida a outras instituições financeiras. Clientes do Ueno passaram a procurar agências para abrir novas contas e obter meios de pagamento, enquanto relatos de falhas nos aplicativos de outros bancos aumentaram a preocupação com o sistema financeiro.
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que as instituições trabalhavam para atender ao aumento da demanda e afirmou que o sistema bancário continuava operando normalmente.
Migração brasileira cresceu após eleições
A crise bancária ocorre em um momento de aumento do interesse de brasileiros em estabelecer residência no Paraguai. O movimento ganhou força após o segundo turno das eleições brasileiras de 2026, quando a vitória de Lula provocou uma onda de buscas por informações sobre como morar no país vizinho.
Segundo dados do Google Trends, as pesquisas relacionadas à mudança para o Paraguai registraram alta expressiva nas horas seguintes à divulgação do resultado eleitoral. Uma das medições apontou crescimento de 1.700% nas buscas por informações sobre residência no país, enquanto outra registrou aumento de 900% nas pesquisas pelo termo “Paraguai” em 24 horas. O interesse, no entanto, já vinha crescendo antes das eleições.
Entre janeiro e setembro de 2026, o Paraguai recebeu 49.538 solicitações de residência, superando os 47.687 pedidos contabilizados durante todo o ano de 2025. Do total de autorizações concedidas a estrangeiros nos nove primeiros meses deste ano, 31.706 foram destinadas a brasileiros, o equivalente a 67,6% das 46.879 residências temporárias e permanentes concedidas no período, segundo dados da Direção Nacional de Migrações.
Estimativas do governo brasileiro indicam que mais de 263 mil brasileiros vivem oficialmente no Paraguai. Dados do Ministério das Relações Exteriores apontavam cerca de 270 mil residentes em 2025, o que coloca o país como a terceira maior comunidade brasileira no exterior, atrás apenas dos Estados Unidos e de Portugal.
A migração é impulsionada por fatores econômicos e políticos. Entre os motivos citados estão a busca por impostos mais baixos, custos de produção reduzidos, oportunidades de negócios e insatisfação com a política brasileira.
O Paraguai também se tornou um destino de interesse para empresários brasileiros que procuram vantagens tributárias e um ambiente político conservador.
Brasileiros que planejavam mudança divergem sobre os efeitos da crise
A turbulência no Ueno Bank não alterou os planos de todos os brasileiros que pretendem se mudar para o Paraguai. A empresária Erika Silva, de 41 anos, está de malas prontas para deixar São Paulo e estabelecer residência definitiva no país vizinho. Ela já mantém negócios de importação e exportação no Paraguai e havia aberto uma conta no Ueno para despesas pontuais durante suas viagens.
O dinheiro mantido na instituição era limitado, mas também ficou bloqueado. “Como era pouco, está tudo bem. Não vou voltar atrás de ir para lá, porque pior que está aqui no Brasil não fica”, afirmou.
Erika avalia que a crise não deve alterar a decisão de brasileiros que buscam o Paraguai por razões econômicas e políticas. Para ela, o episódio não representa necessariamente uma mudança nas condições que motivaram a migração.
Questionada sobre a possibilidade de rever seus investimentos caso Peña seja responsabilizado pela crise, a empresária afirmou que sua principal preocupação está relacionada ao perfil político de um eventual sucessor: “O meu único receio é se assumir um político de esquerda. Vou ser sincera: se isso acontecer, aí eu não vou mais investir no Paraguai”.
O posicionamento evidencia como a expectativa de um ambiente político conservador também integra a decisão de parte dos brasileiros que buscam o país. A crise, entretanto, expõe a diferença entre a percepção de estabilidade política e a segurança efetiva dos recursos mantidos em instituições financeiras.
Mutirão migratório ocorre em meio à instabilidade
Enquanto o sistema bancário enfrenta os efeitos da intervenção no Ueno, o governo paraguaio iniciou, na segunda-feira (02/11), um mutirão de atendimento a estrangeiros interessados em obter residência no país. A ação, chamada MigraMóvil, ocorre em Ciudad del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu, no Paraná, e segue até esta sexta-feira (06/11), das 8h às 16h, no Centro Cultural Mangoré.
Coordenada pela Direção Nacional de Migrações, a iniciativa oferece encaminhamento de pedidos de residência temporária e permanente, inclusive por meio do acordo do Mercosul. Também são disponibilizados serviços de renovação, prorrogação e emissão de documentos migratórios, além de certificados de antecedentes criminais.
São distribuídas 250 senhas por dia, presencialmente, a partir das 7h30.
A mobilização ocorre em um contexto de crescimento da procura por residência no Paraguai, mas a crise bancária pode alterar as expectativas de parte dos interessados, especialmente daqueles que pretendem transferir economias ou iniciar negócios no país.
Crise pode afetar comércio e investimentos brasileiros
Apesar das consequências para correntistas e empresas instaladas no Paraguai, o risco de contágio direto para o sistema financeiro brasileiro é considerado limitado.
A principal preocupação está relacionada à perda de confiança nas instituições paraguaias, que pode restringir o crédito, prejudicar a atividade econômica e levar investidores a adiar projetos.
O Paraguai tornou-se um destino importante para empresas brasileiras atraídas por custos de produção menores e vantagens tributárias, especialmente nos setores de autopeças, têxteis e manufaturados.
Entre janeiro e setembro de 2026, a corrente de comércio entre os dois países movimentou US$ 5,84 bilhões. Desse total, US$ 3,19 bilhões corresponderam a exportações brasileiras e aproximadamente US$ 2,65 bilhões a importações de produtos paraguaios. O Brasil registrou superávit comercial de cerca de US$ 540 milhões.
Uma crise prolongada pode reduzir a demanda por produtos brasileiros, dificultar pagamentos e afetar empresas que integram cadeias produtivas dos dois países. O impacto, porém, tende a ser localizado, sem representar uma ameaça significativa à economia brasileira.
Também não há, até o momento, evidências públicas de exposições interbancárias capazes de transmitir a crise paraguaia de maneira relevante às instituições financeiras brasileiras.
Sistema financeiro paraguaio era considerado sólido
Antes da crise, o sistema bancário paraguaio apresentava indicadores considerados positivos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Em maio de 2026, os bancos registravam índice de capital regulatório de 17,3%, acima do mínimo exigido de 12%. A inadimplência era de 2,6%, enquanto a rentabilidade sobre o patrimônio alcançava 19,3%.
Apesar dos números, o FMI já recomendava aprimorar a supervisão bancária, aperfeiçoar os mecanismos de intervenção em instituições financeiras e acompanhar a expansão acelerada do crédito ao consumidor.
O sistema paraguaio também apresenta uma particularidade: é multimoeda, com depósitos e operações de crédito denominados em guaranis e moedas estrangeiras, principalmente dólares. Essa característica exige atenção adicional à gestão de liquidez e aos riscos cambiais em períodos de instabilidade.
A estrutura de supervisão brasileira, por sua vez, é mais consolidada e opera com regras prudenciais alinhadas aos padrões internacionais de Basileia III, além de mecanismos de monitoramento de riscos e resolução de instituições financeiras.
A crise no Ueno Bank, portanto, não representa necessariamente um colapso generalizado do sistema financeiro paraguaio. Ainda assim, o episódio expõe fragilidades na fiscalização e na gestão de riscos de uma instituição que concentrava uma parcela expressiva dos clientes bancários do país.
Para os brasileiros que migraram ou planejam migrar, o cenário acrescenta uma nova variável à decisão de viver no Paraguai: além das vantagens econômicas e da afinidade política, a confiança nas instituições e a segurança dos recursos passam a ocupar lugar central na avaliação do destino.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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