Foto de Nidal Hasan tirada em 2012/Foto: Divulgação
Trump autoriza fuzilamento de ex-major e governo prevê transmissão ao vivo
Nidal Hasan foi condenado pelo ataque à base de Fort Hood, em 2009; especialistas questionam o caráter de espetáculo da transmissão.
Atualizado há 1 horas
O governo dos EUA planeja transmitir ao vivo a execução por fuzilamento do ex-major do Exército Nidal Hasan, condenado pelo assassinato de 13 pessoas na base militar de Fort Hood, no Texas, em 2009. Prevista para 03/12, a aplicação da pena reacende o debate sobre a pena de morte nos Estados Unidos e levanta questionamentos sobre a decisão de exibir publicamente a morte de um condenado.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, confirmou os planos em uma publicação na rede social X e, em entrevista ao canal Real America's Voice na quinta-feira (08/10), afirmou que o Exército garantirá que o público possa acompanhar a execução. Segundo ele, a exposição serviria para demonstrar as consequências de crimes dessa natureza.
Ainda não foram esclarecidos todos os detalhes operacionais da transmissão, incluindo o formato de exibição e a possibilidade de presença de espectadores no local. A Casa Branca não informou se o presidente Trump apoia pessoalmente a transmissão ao vivo e encaminhou os questionamentos ao Pentágono.
Na segunda-feira (05/10), o porta-voz do Departamento de Defesa, Sean Parnell, anunciou que o presidente havia aprovado a execução, por recomendação de Hegseth. Pelo Código Uniforme de Justiça Militar dos Estados Unidos, uma sentença de morte imposta por corte marcial depende da aprovação presidencial para ser executada.
Questionado sobre eventuais pedidos finais de Hasan ou contatos com o governo, Hegseth respondeu: “Não me importa. Vamos vê-lo em 3 de dezembro”.
Ataque a tiros deixou 13 mortos e 32 feridos
Hasan, hoje com 56 anos, era psiquiatra militar e abriu fogo em 05/11/2009 em uma instalação médica de Fort Hood. Armado com uma pistola equipada com mira a laser, matou 12 militares da ativa desarmados e um militar aposentado, além de ferir outras 32 pessoas.
Durante o ataque, ele gritou “Allahu Akbar”, expressão árabe que significa “Deus é grande”. Posteriormente, Hasan descreveu a ação como uma retaliação às guerras conduzidas pelos Estados Unidos em países de maioria muçulmana.
Em agosto de 2013, um tribunal militar o condenou à morte após considerá-lo culpado de 45 acusações de homicídio premeditado e tentativa de homicídio premeditado. Hasan foi baleado pela polícia durante a prisão, ficou parcialmente paralisado e passou a usar cadeira de rodas.
O caso é considerado um dos episódios mais graves de violência em uma instalação militar dos Estados Unidos. A execução prevista para dezembro será realizada pelo Exército, na mesma base onde ocorreu o ataque, segundo as informações divulgadas sobre o planejamento.
Transmissão pode transformar execução em espetáculo
A proposta de exibir a execução ao vivo provocou críticas de especialistas em direito militar, que questionam a transformação de uma punição estatal em entretenimento público.
Eugene Fidell, advogado e especialista em direito militar que leciona na Faculdade de Direito de Yale, afirmou não identificar impedimentos legais intrínsecos à transmissão, mas condenou a possibilidade de transformar a execução em um espetáculo.
“Independentemente de qual seja a opinião das pessoas sobre o caso do major Hasan ou sobre a pena de morte em geral, a ideia de realizar um espetáculo público é realmente muito lamentável, e gostaria de acreditar que o governo reconsideraria essa decisão”, declarou.
Fidell lembrou que, séculos atrás, execuções eram realizadas diante de multidões, que compareciam para assistir à morte de condenados. Para ele, a proposta representa um retrocesso em relação à evolução das práticas penais e à preservação da dignidade humana.
O especialista também observou que execuções públicas são associadas atualmente a países como Coreia do Norte e Irã, uma comparação que, segundo ele, deveria levar o governo estadunidense a reconsiderar a iniciativa.
Nos Estados Unidos, transmissões de execuções já foram objeto de disputas judiciais, e tentativas anteriores de veículos de comunicação foram barradas pelos tribunais. A exibição ao vivo de uma execução legal seria, segundo especialistas citados pela imprensa, um caso sem precedentes conhecidos na história recente do país.
A discussão envolve não apenas a pena de morte, mas também a maneira como o Estado apresenta a punição à sociedade. Ao prometer a exibição pública de um fuzilamento, integrantes do governo associam a execução à demonstração de força e à produção de uma mensagem política sobre criminalidade e autoridade estatal.
Essa dimensão simbólica ganha relevância diante da declaração de Hegseth de que o público deve acompanhar o procedimento para compreender as consequências de crimes graves. A transmissão pode deslocar o foco do julgamento e da responsabilização penal para a exposição da morte como demonstração pública de poder.
Última execução pública ocorreu em 1936
A última execução pública legalmente autorizada nos Estados Unidos ocorreu em 1936, no estado do Kentucky. Na ocasião, Rainey Bethea, um homem negro condenado pelo estupro de uma mulher branca, foi enforcado diante de milhares de pessoas.
O episódio ocorreu em um período marcado por profundas desigualdades raciais e por uma história de violência pública contra a população negra. Linchamentos extrajudiciais, frequentemente realizados por multidões brancas contra pessoas negras, também foram tratados como espetáculos em diferentes regiões do país até o século XX.
A distância histórica entre aquele episódio e a proposta atual evidencia a controvérsia em torno da retomada da exposição pública de uma execução. Embora o governo apresente a iniciativa como uma forma de demonstrar as consequências de crimes graves, críticos questionam se a transmissão não converte a aplicação da pena em instrumento de propaganda política.
Fidell também apontou que a posição do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas é contrária às execuções públicas por considerar que elas violam a dignidade humana. Ele ressalvou, porém, que o Congresso dos Estados Unidos não aderiu ao pacto internacional citado como referência para essa proibição.
Fuzilamento militar não ocorre desde 1945
Caso seja realizada, a execução de Hasan será o primeiro fuzilamento militar nos Estados Unidos desde 1945. O último militar estadunidense morto dessa forma foi Eddie Slovik, executado na França durante a Segunda Guerra Mundial, após ser condenado por deserção.
A última execução de um militar dos Estados Unidos ocorreu em 1961, quando John A. Bennett foi enforcado no Kansas. Ele havia sido condenado por estupro e tentativa de assassinato de uma menina de 11 anos.
O fuzilamento é um método raro de execução no país. De acordo com o Centro de Informações sobre a Pena de Morte, cinco estados autorizam a prática: Idaho, Mississippi, Oklahoma, Carolina do Sul e Utah.
Em 2025, a Carolina do Sul realizou uma execução por fuzilamento, a primeira nos Estados Unidos em 15 anos. A modalidade voltou a ganhar espaço em meio às dificuldades para obter os medicamentos utilizados em injeções letais e às falhas registradas em procedimentos de execução.
Além do fuzilamento, o governo Trump ampliou o conjunto de métodos previstos para execuções federais relacionadas aos crimes mais graves, incluindo a cadeira elétrica e a asfixia por gás. A mudança ocorre em um cenário de questionamentos sobre a disponibilidade e a eficácia dos medicamentos utilizados na injeção letal.
Tentativa malsucedida contra Christa Pike amplia controvérsia
O planejamento da execução de Hasan ocorre dias depois de uma tentativa malsucedida de executar Christa Pike, de 50 anos, no Tennessee. Condenada à morte pelo assassinato de uma colega em 1995, ela sobreviveu a uma tentativa de aplicação de injeção letal, segundo autoridades penitenciárias.
Pike havia sido condenada pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19 anos, cometido em Knoxville quando a ré tinha 18 anos. De acordo com a acusação, Pike, seu namorado, Tadaryl Shipp, então com 17 anos, e uma terceira pessoa atraíram a jovem para uma área de mata em 12/01/1995. Slemmer foi torturada e morta.
O crime envolveu agressões com um estilete e um pedaço de asfalto. Shipp admitiu ter gravado um pentagrama no corpo da vítima, e Pike foi a única dos envolvidos condenada à morte. Ele recebeu prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional.
A execução de Pike foi contestada por seus advogados, que apontaram seu histórico de violência, negligência e abuso sexual na infância, além de diagnósticos de transtorno bipolar e transtorno de estresse pós-traumático. A defesa também alegou que fatores relacionados ao desenvolvimento cerebral e à saúde mental deveriam ser considerados na análise de sua responsabilidade e da pena.
Os advogados tentaram interromper o procedimento por meio de uma petição judicial. Relatos de testemunhas citados pela imprensa indicaram que Pike continuava viva após a aplicação dos produtos químicos, enquanto jornalistas que acompanharam a execução descreveram roncos, suspiros e manifestações de desconforto. Ela foi encaminhada a uma unidade médica externa.
O governador do Tennessee, Bill Lee, havia negado o pedido de clemência da condenada. Após a tentativa malsucedida, anunciou a suspensão das demais execuções previstas para aquele ano e uma revisão abrangente dos procedimentos por uma entidade independente.
A tentativa foi a segunda execução frustrada no estado em 2026. Em maio, agentes penitenciários interromperam outro procedimento depois de não conseguirem encontrar uma veia adequada para administrar a injeção letal.
O caso de Pike também provocou discussões sobre a aplicação da pena capital a pessoas que cometeram crimes na adolescência, especialmente diante de históricos de abuso e problemas de saúde mental. A mãe de Slemmer, May Martinez, por sua vez, manifestou apoio à execução e afirmou que aguardava havia décadas o cumprimento da sentença contra a responsável pela morte da filha.
Debate envolve métodos de execução e limites do Estado
A tentativa de executar Pike e o plano de fuzilar Hasan expõem diferentes controvérsias sobre a pena de morte nos Estados Unidos. No primeiro caso, a discussão envolve a segurança dos procedimentos de injeção letal, a situação clínica da condenada e as circunstâncias de sua formação e do crime. No segundo, além da legitimidade da pena, a controvérsia se concentra na possibilidade de transmitir a morte em tempo real.
A defesa de Hasan poderá contestar a execução por meio de instrumentos judiciais, como o habeas corpus, que permite a pessoas presas questionar a legalidade de sua detenção ou punição perante os tribunais. Segundo Fidell, uma iniciativa desse tipo poderia prolongar o caso por anos. O especialista observou, contudo, que Hasan não havia atuado de forma incisiva para evitar a pena de morte anteriormente e que não era possível prever se mudaria de posição.
O grupo Death Penalty Action, contrário à pena capital, criticou a decisão presidencial. Em comunicado, afirmou: “Não há nada que Donald Trump ame mais do que o poder de matar”.
A execução de Hasan, caso confirmada para 03/12 e transmitida ao vivo, reunirá três elementos de grande impacto político: a aplicação da pena capital por meio de um método historicamente raro, o uso da estrutura militar para cumprir a sentença e a exposição pública do procedimento. O debate ultrapassa, assim, a condenação de um homem por um ataque que matou 13 pessoas e alcança os limites éticos e políticos da forma como o Estado exerce e exibe seu poder de punir.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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