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Coluna: A Ousadia de Fracassar — A Criança Que Ficou

Texto de Paulo Martare.

Atualizado há 1 horas

Na ousadia de fracassar, tenho pensado sobre uma passagem da Bíblia que, quanto mais velho fico, mais faz sentido: "Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus" (Mateus 18:3).

Por que ele escolheu justamente a criança como modelo? O que ela tem que nós, adultos, perdemos pelo caminho?

A resposta talvez esteja em duas canções que marcaram gerações: "Bola de Meia, Bola de Gude", de Milton Nascimento, e "Aquarela", de Toquinho. Ambas falam daquilo que o tempo tenta apagar em nós — a capacidade de se encantar, de brincar, de sentir sem medo.

Milton canta: "Há um menino, há um moleque / Morando sempre no meu coração / Toda vez que o adulto balança / Ele vem pra me dar a mão."

É isso. A criança que fomos não morre. Ela fica guardada, esperando que a gente tenha coragem de chamá-la de volta. Mas o mundo adulto nos ensina justamente o contrário: ensina a esquecer, a endurecer, a desaprender.

Toquinho, por sua vez, nos lembra: "Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo / E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo."

Para a criança, tudo é simples. Cinco retas viram um castelo. Um lençol vira uma capa de super-herói. Uma caixa de papelão vira uma nave espacial. A criança não precisa de muito para criar mundos inteiros. Ela ainda sabe o que nós desaprendemos: que a imaginação é mais poderosa que a realidade.

Mas aí crescemos. E o mundo nos ensina que:

— Perdoar é ser fraco. A criança perdoa em cinco minutos. O adulto guarda rancor a vida inteira.

— Brincar é perder tempo. A criança brinca sem medo do ridículo. O adulto tem vergonha de ser espontâneo.

— Maravilhar-se é ser ingênuo. A criança se encanta com uma borboleta, com a chuva, com o arco-íris. O adulto se entedia com tudo.

— Chorar é ser vulnerável. A criança chora quando dói e logo está bem de novo. O adulto engole o choro, guarda a dor e adoece por dentro.

Isso me faz lembrar O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, talvez o livro mais profundo já escrito sobre a infância e o que perdemos ao crescer. O Pequeno Príncipe diz algo que deveria estar gravado em cada um de nós: "Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos."

As crianças sabem disso. Elas enxergam com o coração. Elas não se importam se você é rico ou pobre, bonito ou feio, bem-sucedido ou fracassado. Elas querem saber se você brinca, se você ri, se você é verdadeiro.

E quando Saint-Exupéry escreve que "todas as pessoas grandes foram um dia crianças, mas poucas se lembram disso", ele está nos alertando: esquecemos quem fomos. E, ao esquecer, perdemos a capacidade de viver de verdade.

Aqui está o paradoxo: chamam de "imaturo" quem mantém a criança viva. Dizem que é preciso "amadurecer", "deixar de ser criança", "parar de sonhar". Mas Jesus disse exatamente o oposto. Ele não disse: "Sejam adultos responsáveis e calculistas." Ele disse: "Voltem a ser crianças."

Porque a criança ainda sabe o que realmente importa.

Ela sabe perdoar de verdade — sem rancor, sem cobrança, sem guardar mágoa.

Encanta-se com o simples — um passarinho, uma nuvem, um abraço.

Ama sem calcular — sem medir esforços, sem contar quanto deu e quanto recebeu.

E sente sem vergonha — chora quando precisa, ri quando quer, não esconde o que sente.

Ela sabe acreditar mesmo depois de cair — tropeça, levanta, sacode a poeira e continua brincando.

Cidade Negra nos lembra em "Girassol": "A verdade prova que o tempo é o senhor dos dois destinos. Já que pra ser homem tem que ter a grandeza de um menino."

É isso. Para ser verdadeiramente humano, é preciso ter a grandeza de uma criança. Aquela grandeza que não mede, não calcula. A grandeza de quem ainda sabe perdoar, se encantar, amar sem medo.

É isso. A criança enxerga o mundo de outro jeito. Não porque seja alienada ou ingênua, mas porque ainda não aprendeu a desistir da beleza, da pureza, da esperança.

E talvez seja exatamente isso que Jesus quis dizer: crescer não deveria significar endurecer. Deveria significar aprender a proteger a criança que ainda mora em nós — aquela que ele disse ser a mais sábia de todas.

Porque, no final das contas, voltar a ser criança não é regredir. É lembrar quem éramos antes de o mundo nos ensinar a ter medo de sentir. É reencontrar aquela parte nossa que ainda sabe brincar, perdoar, se encantar, amar sem medo.

É ter a coragem de desenhar um sol amarelo numa folha qualquer. E acreditar, de verdade, que cinco ou seis retas podem fazer um castelo.

Sobre o autor

Paulo Martare é professor de artes visuais e profissional de artes e letras. Acompanhe seu trabalho no @paulomartare .

Foto do Jornalista

Rayza Espírito Santo

Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.

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