À esquerda, campanha de Flavio Bolsonaro veiculada on line/À direita, propaganda de Benito Mussolini/Foto: Reprodução
Imagem de Flávio Bolsonaro publicada pelo PL remete à propaganda fascista
Partido atribuiu o material ao Partido Liberal Jovem e afirmou que não houve intenção de reproduzir a propaganda utilizada durante o regime de Benito Mussolini.
Atualizado há 1 horas
O Partido Liberal (PL) retirou do ar, na manhã de sábado (10/10), uma montagem do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, que apresenta semelhanças visuais com uma propaganda utilizada pelo ditador fascista italiano Benito Mussolini, em 1934. Publicada no canal oficial da legenda no WhatsApp na quinta-feira (08/10), a imagem provocou questionamentos sobre a referência histórica, negada pelo partido, que pediu desculpas pelo episódio.
A peça mostrava o rosto de Flávio em preto e branco, cercado pela expressão “Tropa do Flávio”, repetida diversas vezes ao fundo. A composição foi comparada a uma propaganda histórica exibida na fachada do Palazzo Braschi, em Roma, na Itália, que trazia uma fotografia de Mussolini rodeada pela palavra italiana “Sì”, que significa “sim” em português.
Em nota, o PL afirmou que o material foi produzido pelo Partido Liberal Jovem (PLJ) e inspirado em peças gráficas antigas. A legenda negou qualquer intenção de fazer referência à propaganda fascista e informou que a publicação havia sido removida.
“O Partido Liberal Jovem (PLJ) fez uma publicação inspirada em peças gráficas da antiguidade e não teve qualquer intenção de fazer alusão à imagem referida. Ainda assim, o conteúdo já foi retirado do ar. O partido pede desculpas pelo equívoco e por qualquer interpretação decorrente dessa coincidência”, declarou a sigla.
Semelhança com propaganda de 1934
A comparação remete a uma composição instalada em março de 1934 na fachada do Palazzo Braschi, edifício que abrigava a federação fascista de Roma. A estrutura apresentava o rosto de Mussolini em grandes proporções, acompanhado pela repetição da palavra “Sì”.
A propaganda foi produzida para o plebiscito realizado naquele ano, durante a ditadura fascista italiana. Os eleitores foram convocados a aprovar ou rejeitar uma lista única de candidatos previamente escolhidos pelo regime, em um contexto de repressão política e ausência de competição eleitoral democrática.
A composição visual associava a imagem do ditador à aprovação popular do governo. O registro tornou-se uma das representações conhecidas da propaganda política utilizada pelo fascismo italiano para promover a figura de seu líder e projetar uma imagem de apoio coletivo ao regime.
Mussolini fundou o movimento fascista na Itália e governou o país como primeiro-ministro a partir de 1922. Entre 1925 e 1943, exerceu o poder como ditador, sob o título de Il Duce. Seu regime serviu de referência para movimentos autoritários europeus, incluindo o nazismo de Adolf Hitler, na Alemanha.
Historiador aponta referência visual ao fascismo
A semelhança entre as duas imagens foi analisada por Odilon Caldeira, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e coordenador do Observatório da Extrema Direita. Para o pesquisador, a composição publicada pelo PL apresenta uma referência visual clara à propaganda fascista.
“É evidente que isso é uma referência ao fascismo”, afirmou Caldeira, ao relacionar a estética da montagem a elementos associados à obediência, à dominação e à exaltação da figura do líder, características presentes na propaganda de regimes totalitários.
O historiador, entretanto, pondera que a publicação não deve ser interpretada necessariamente como uma tentativa de conquistar o apoio de grupos neofascistas. Na avaliação dele, a peça também pode ter sido utilizada como uma estratégia de comunicação destinada a provocar reações de adversários políticos e interferir no rumo do debate eleitoral.
Segundo essa hipótese, a repercussão poderia levar opositores de Flávio Bolsonaro a concentrar esforços na discussão sobre uma eventual associação entre o bolsonarismo e o fascismo. Isso desviaria a atenção de temas considerados mais relevantes para a decisão dos eleitores, como propostas de governo e questões econômicas e sociais.
Caldeira também avalia que o uso recorrente do termo “fascista” no debate político pode provocar reações defensivas entre eleitores identificados com o bolsonarismo, dificultando o diálogo com pessoas indecisas ou insatisfeitas com a candidatura do senador.
A interpretação sobre uma possível estratégia deliberada, contudo, é uma hipótese levantada pelo pesquisador, e não uma intenção confirmada pelos responsáveis pela publicação. O PL negou que a montagem tivesse sido criada para fazer alusão à propaganda de Mussolini.
Controvérsia em meio ao debate eleitoral
O episódio coloca em discussão os limites e os efeitos da comunicação política em campanhas eleitorais, especialmente quando recursos visuais remetem a símbolos e acontecimentos históricos associados a regimes autoritários.
Embora o partido atribua a semelhança a uma coincidência gráfica, a comparação com a peça de 1934 levou a questionamentos sobre o significado da composição e seus possíveis efeitos no debate público.
Até a manifestação divulgada pela legenda, a justificativa apresentada foi a de que o conteúdo havia sido produzido pelo PLJ sem intenção de reproduzir referências ao fascismo. O partido informou que a montagem foi removida e pediu desculpas pelas interpretações decorrentes da semelhança.

Rayza Espírito Santo
Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista.
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